Aparelhos Repressores do Estado
Acendi uma vela para que nossos pedidos se realizassem no Natal deste ano, ainda que fossem pedidos difíceis de alcançar. Mesmo assim, estávamos quase tocando nos sonhos que pensamos desde jovens. Ele me conta sobre tudo que perdi nos últimos anos. Eu adoro saber dessas histórias sobre o que aconteceu por essas ruas, ainda que não seja uma contadora boa, eu sempre preferi ouvir.
Eles me perguntam sobre os textos, é impressionante como ninguém esqueceu das linhas que escrevi e ainda me procuram depois de aparecer em pensamento. Eu preciso cansá-los com as armas que tenho: o corpo, categoria discursiva. Corpo histórico, político, social. A palavra: tudo que tenho sem nunca haver completude.
Ainda que as palavras soem duras, sarcásticas, mentirosas ou invejosas, elas são verdadeiras. Muitas são palavras de amor misturado com uma dose exagerada de rebeldia. Isso é ilegal? Eu não tenho absolutamente nada em ficha criminal. Esses fantasmas do passado... Nesses filmes onde aparecemos eu e você, um em cada noite (alguns em várias), vocês foram sempre protegidos quando veio a polícia, disso eu jamais esqueci. Pelos meus óculos e cara inocente: o corpo. Você estragou tudo que eu acreditava.
Acho que conseguiram aprender que eu ensino essas meninas em uma aula experimental, todos sabemos qual é o tema, pena que não me deram nenhum horário para atendê-las. Ainda que eu pudesse comer. Ainda que eu estivesse disponível. Eu odeio homens egoístas. A verdade é que sempre sei qual é a próxima frase dele. Eu conheço bem, já é previsível. Eu espero que ela tenha tempo de responder dezenas de mensagens de homens para quem eu passei o número dela. Isso é ilegal, mas não é imoral no meu caso.
Me tira o sono saber que o Estado está esmagando alguns sonhos. Isso pode prender minha mente em falsas esperanças. Ainda assim, prefiro seguir acreditando que vamos conseguir e todos vão ver como as palavras saem, como elas doem, como elas transbordam. Quero que ouçam nossa voz, mesmo se sair baixinho.
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