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Mostrando postagens de março, 2026

Carnaval fora de época

N o carnaval de fevereiro, não havíamos nos reencontrado ainda. E eu sentia algo como tatear no escuro de quarto onde eu já havia estado antes, há muito tempo. Desta vez, com março chegando ao fim e depois de 12 anos sem carnaval de rua na cidade, andamos pela avenida, e ele estava como uma criança, cantando de cor a música da sua escola de samba e se encantando com as cores, a dança, as batidas dos instrumentos. E eu em êxtase com as beldades sambantes. Ele já havia desfilado nela antes, na bateria. O álcool corria em nosso sangue, mas para ele, fazia muito mais efeito. Ele me pergunta se pode me dar a mão. Eu digo não, mas logo cedo e estou só carinhos. Na rua, garotos enalteciam suas tatuagens. Prestes a amanhecer, um desses caras disse a ele que isso era atitude de quem tem muita personalidade, andar sem camisa, até porque ele estava usando a da seleção brasileira. Essa personalidade é transtornada e está no limite, é extremamente semelhante a minha. Mas está mais quebrada, ainda n...

Sem competição

Existe algo caótico que me consome e me faz escrever. Deixo esses blocos de textos sem parágrafos, porque as palavras arrebentam sem controle, mesmo no colapso do planeta e com todas essas tarefas aparecendo, elas escorrem pelos dedos. Ele se converteu em um esporte muito perigoso, em um jogo de apostas arriscado, porque sabe que sente mais falta de mim no arrastar das horas do que eu dele, porque o meu tempo só não está preenchido quando estou com ele. O que eu sinto é presença continuada da ausência, é cotidiano da novela, do filme e do futebol, da música como alimento, um cotidiano calmo e submisso com seus e nossos momentos de revolta. Esse beijo fica colado em mim, porque quem não sabe se apaixonar é ele, não eu. Quando me grava em êxtase, confessa que ela não fazia certas coisas na cama, sabe que também tenho vocação para as artes da linguagem que não necessita palavra para simbolizar, mas tem consciência depois não pode visualizar o material em quem é o diretor, para não correr ...

Subindo de nível

Testá-lo na intimidade alcoólica dele passou a ser meu hobby no último mês, por isso acendo seu ego até o amanhecer. Ele diz que sente minha falta quando não estou, é como uma abstinência para nós dois. Gosto de conhecê-lo cada vez mais, comparando-o com quem ele era há doze anos atrás. Quanto mais bebemos de uma vodca barata, mais fico presa aos olhos dele e a todas as suas performances artísticas, sempre dançando e cantando, dentro deste quarto que passei a habitar no agitado cotidiano. Não sabemos até que ponto pertencemos um ao outro, mas ele precisar reafirmar isso incontáveis vezes, fuzilando-me com seu olhar cansado, colocando a culpa em mim por seduzi-lo, sendo que há muito estive apaixonada por ele, esta dívida foi ele quem contraiu de um passado distante. Quando assistimos os vídeos clássicos de rap norte-americano, me diz que não sou como novinhas sem assunto, porque nós temos muito para conversar, em uma competição de cultura. Falamos de cinema brasileiro e ele me diz que q...

Rotina e escapismo

Essa alma dele é como a minha, nunca se cansa de andar de uma casa a outra, de um bairro a outro, sem falhar uma semana. Ele é difícil de encontrar, mas quando quer me ver, quando está bêbado, se manifesta a qualquer horário do dia. Gosta que eu diga sim com todas as condições, dá um jeito de vir para o bairro vizinho onde fico quando não estou na casa dele. Me divirto com o cachorro dele, porque gosto de tudo que me faz feliz com carência ou obsessão, atravessando inconsciente e passando pela memória. Beirando sempre a abstinência, eu vivo em ritmo acelerado. Ele sempre lembra de me dar cigarro, ponto fraco de fumante é ver o outro sem. Pede que o ajude a escrever um livro, mas precisa de um caderno novo para escrever suas letras. Nunca cuido dele, mesmo com ressaca, porque eu sempre estou bem, mas não me esforço para nenhuma tarefa doméstica. Eu nunca fui uma mulher tão elevada e fora do esperado em toda minha vida. Quando se acalma, vemos TV aberta o dia inteiro, envoltos em fumaça,...

Ebriedade

Como saber se isso é sério, se ele está sempre bêbado, mesmo que seja de dia. Nunca acreditei no que já disseram sobre ele, sabia bem que era doce e gentil. Quando souberam que já o conheciam ironizaram "apresenta para o teu pai um desses". Como se fosse um espécime raro. Quando se estressa, por ciúmes, consigo provocá-lo e ainda seguir no controle total. Mesmo assim, a insegurança da minha personalidade limítrofe, interpreta qualquer sinal de ausência ou silêncio como abismo, essa falta, esse vazio, opera em minha mente quando estou longe dele. Quanto mais isso que não tem nome avança, mais eu percebo que estou me perdendo nos olhos negros dele. Depois da noite de hip hop e reggaeton, somente black music e latino, somente marrons, passamos pelo corredor do ciúmes a noite inteira. Me adianto na agressividade física, eu sempre vou ganhar. A noite alcança os morros que escondem Itaara. Ao vê-lo tranquilamente, num sábado à tarde, preparando e tomando mate, com um baseado terrív...

Névoa e luz solar

A lua cheia estava estampada no céu. Segui pela viela escura de carro com motorista, espiando para ver se estavam me perseguindo. Sensação estranha esta a de que estávamos sendo observados. Ele demorou horas para perder o medo de que aquela pessoa chegasse a nos interromper com violência. Ele só tem uma faca, mas sempre corre atrás de confusões. Garanti a ele que tinha a minha proteção, que meu jogo de palavras mutilante é muito mais forte do que brigas ou do que suas letras de gangsta rap. Nos conhecemos no seu show, cada dia que nos vemos, um de nós relembra mais detalhes e isso sacode nossa juventude. Me prometeu mais memórias desde que nos falamos pela primeira vez dessa última, porque temos alguma história, uma que nos salva de todas as decepções que vieram depois e que seguem nos atormentando, o que se comprova pelo pesadelo que ele me conta. Quanto mais fumava marijuana, bebia uma garrafa de vodka e me ajudava com a garrafa de gin, mais perdia o medo. Mas havia outros problemas ...

Vampirismo

Ele gritou inúmeras vezes que me amava na cama, sob efeito de álcool e marijuana. Dessa vez, o deixei ainda mais vulnerável, abriu seu coração, falou das duas, até mesmo de um filho que perdeu com uma delas. Conheço a vida dele, vivo acompanhando. Ele já pode esquecer de tudo isso, deixar lá no fundo da memória, porque a vida dele está mudando e ele percebe que até os famosos estão atrás de mim, agora ele é meu groupie, porque a escritora famosa sou eu. Seu ciúmes se transforma em admiração, porque sou sua indiazinha. Me pergunta o que sou para ele, não soube dizer e o silêncio nos engoliu na escuridão. Ficou insustentável suportá-lo alcoolizado, mas eu tenho muita paciência até mesmo numa sala de aula lotada. Ele pode derrubar tudo dentro do quarto, cair algumas vezes, eu absorvo sua fragilidade, porque posso sentir suas feridas. Todas as coisas da vida dele parecem haver desmoronado da pior forma possível. Me diz que mandou nossa foto para seu pai, pergunta como se faz para me assumi...