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Álgebra

Prevalece em mim a vontade de escrever para viver em paz comigo mesma. Há tantas coisas a fazer, aulas a planejar, preciso de inspiração. No entanto, a única coisa que tenho encontrado são problemas. Apesar de tudo, você continua sendo meu problema favorito para resolver, mais instigante que matemática. Não me questione sobre quem eu sou, você deveria tentar desenvolver bons hábitos antes de me recriminar. As coisas acontecem muitas vezes sem pretensão, sempre foi assim.  Você faz o transcorrer das minhas noites mais longas para a diversão e menos atraente para as tarefas necessárias.  Você me leva para um bar, mas ele está fechando e não nos deixam entrar. Depois andamos por toda cidade, calados, discutindo. Rotina. Mas tudo estava diferente, sua voz e seus olhos brilhavam muito, como tudo aquilo que tem valor deve brilhar.  Tento partir, mas hesito. Não sei onde devo estar. Aperto suas mãos e olho dentro dos seus olhos. Você segue conduzindo o carro. Cervejas e comidas junkies. A f…

Pêssegos podres

A luz do dia invade a janela, bem em frente a uma parede sem janelas. É difícil ver algo à noite, mas consigo ver uma estrela que outra. Parece que estou perto do céu, com a cama tão próxima da janela permanentemente aberta, com a brisa adentrando.
Não consigo lidar com o seu desaparecimento, me acusando e julgando: culpada.
Estou perdendo tudo, a cabeça, a hora, as coisas, principalmente o controle. Flutuando e pensando em por quê todas essas coisas aconteceram e toda a responsabilidade ser minha.
Lua minguante, fim próximo. Eu vi nas cartas o esquife.
Sua voz me dizendo que eu sou ruim. Cuidado com o que diz sobre mim, minha mente é um gatilho para minhas palavras. Você faz com que meus textos sejam tristes e minha eternidade seja à sua espera.
Que intimidade despedaçada, como uma eterna tristeza guardada em uma gaveta. Esses lamentos ninguém escutará, pois é difícil falar de si. Nada além de uma fruta podre, que não serve mais.
Jamais seremos aquilo que dizem que somos. Não existo …

Alvo fácil

Uma tentativa de escape sufoca minha mente, você realmente é inalcançável como as estrelas no céu. Todas as coisas parecem as mesmas no Passo da Guanxuma, mas tudo está fora do lugar. Minhas histórias continuam vivas em cada esquina. Você permanece nas luzes, nenhum palco é suficiente para te expor. Longe... esquecido. Assim como minhas memórias, você me derruba como uma flecha. Meu coração é um torvelinho e você sempre acerta o dardo.  Não existe nenhum lugar onde eu possa te encontrar, somente memórias conectadas, como um aneurisma crônico. Toda a beleza dela me estonteia - e assombra todos os dias-, como uma sereia que canta, lasciva e solitária. Meu espelho quebrou e o tempo a melhorou, porém eu piorei, como uma fruta podre que está putrefata em várias partes, do cérebro à todas as outras partes do meu corpo cheio de curvas.  Todos os segredos da minha cama são pra menores de vinte e cinco anos, o conservadorismo está latente nas profundezas do inferno. Existem tantos lugares ond…

Sputnik

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Nosso quarto de paredes verdes clamando por qualquer discórdia distração sem competição o cenário é 1960 apague todas as luzes e me sirva mais uma taça a tela em preto e branco pull my daisy na televisão
nós dois dormindo um sobre o outro o surrealismo faz sentido deveria eu utilizar a técnica revolucionária do cut-up para escrever? garrafas vazias, dezenas delas converso com os quadros há um de mulheres dançando do lado de fora de uma casa qualquer pull my daisy na televisão
os poetas beatniks bebem tanto que fiquei bêbada também as janelas mostram tudo que eu não quero ver vestidos baratos e sapatos velhos nós nunca fomos ao cinema juntos pull my daisy na televisão
as palavras dançam na minha mente  exatamente como um baile de baratas cockroaches, cockroaches, cockroaches... escuto as baratas em meu coração que bate num beat frenético pull my daisy na televisão
O beat do coração da música dos pobres abatidos da beatificação meus sonhos lúcidos O beat do jazz e da revolução Incendei…

Bandeira vermelha: mar perigoso

Já não há nenhum espelho na casa, todos eu mesma quebrei com os anos. Os anos nos devoraram, e hoje cortaram nossa luz, eu não pude impedir.
Você me derrubou na areia com uma destreza que me fez acreditar que eu sou pura, mas querido você não sabe de nada. Toda a sujeira que penso quando você não está, parece que você já não é tão inocente. Colocando areia em minha bunda... Quando aprendi a te odiar? Você desencadeou em mim uma vontade tão pública, do jeito que fizemos como cachorros, você nunca encontrará ninguém assim, não há nenhum romantismo entre nós. Queria voar mais longe, renovar emoções, onde eles estão para encontrar-me, você não poderá manter alguém de aquário apaixonado por você para sempre. A lua e as sublimes estrelas nos espionando na noite de vento. Não se preocupe, pois as deslumbrantes dunas jamais contarão nossas obscenidades a ninguém, nem mesmo as corujas dirão nada. As ondas violentas como meus movimentos, ninguém duraria muito tempo aficionado assim. Comparta a …

Reflexos da lua azul

São noites em que meu corpo está com o útero pleno e vermelho, em sintonia com a lua cheia azul entre as nuvens que dançam no céu como o cenário de um ritual de um povo antigo, e talvez exterminado. Muitas de nós não podem sobreviver bem, mas mesmo assim resistimos. Às vezes só as palavras fazem sentido, documentadas por uma rede que permite nossa redenção com a literatura. Como acontece com o acesso livre na internet. Tento em vão despistar meus fantasmas. Você os afasta com um simples abraço, os escombros do meu coração naufragaram em alguma praia poluída, e não posso prender o choro, então desaguo. Esgoto. Me esgoto. Que desgosto... Sabemos que o álcool cai bem com a nicotina, parece mais fácil espantar fantasmas assim. De alguma forma te culpo, blasfemo. Nunca existiu confissões agradáveis saindo da sua boca, e por vezes parece difícil distinguir verdades de mentiras, medir valores, expectativas, limite de aproximação. A próxima ação: transbordar. As vezes as chamas se espalham ráp…

Mobília

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Preparei um café doce demais e me senti pronta para escrever. Quero me movimentar através da arte das palavras, gosto de lidar com elas sem ter nenhum compromisso estético, sequer existe uma escola literária para mim. Cansei de observar a cidade pulsar e apenas ter a consciência de que meu coração segue batendo. As coisas seguem acontecendo, sem interrupção. Existem travas em mim que dificultam uma publicação, mas seria bom assumir-me escritora completamente e ter um livro de autoria minha, comigo sendo a estrela principal. O ônibus com o letreiro vilaleste passa em frente de casa e sei exatamente que horas são. Meus objetos se misturaram com os seus por mais que eu tenha relutado, simplesmente levei alguns embora, mas existem tantos – destruídos também. Há momentos em que somente estar alimentado não basta. O limite da selvageria indômita é ilimitado. Eu sigo aqui, eu pertenço a esta mobília. Você me diz que eu deveria escrever um livro. Que tipo de literatura o mercado editorial ace…