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Queda

De dentro da gaiola, o passarinho amarelo caiu e está machucado em recuperação. Me culpei pelos ventos fortes e ele tentou me consolar, foi quando se deparou com minha personalidade e quis fugir. Tenho sede de escrever. Minha mente flutua com a fumaça e meus dedos tentam acompanhar seu ritmo frenético na calmaria da rotina e no frenesi do fim de semana. Ele vai embora e leva minha marica. Tem saudade de um mate, de um chima, de uma maco. Minhas pretensões nunca são boas com os garotos, eles acabam fazendo por merecem em algum momento, mais cedo o mais tarde. Com as garotas, me assusto, porque não suporia machucá-las. Tenho pouco a perder sem ele e muito com ele. Para ele, é ao contrário. Mesmo assim, passa pela porta em direção à rua para que seu pai o apanhe o leve de volta à casa, onde seu primo está de férias do sistema outra vez. Sem que nada de álcool estivesse em seu sangue. Sujeita às intervenções do outro, arrasto suas mensagens para não respondê-las e acabo por sonhar com mens...

Areia

Nunca pronuncio que vou desistir, sempre abandono tudo quando sei que vou fracassar. Mas, eu não digo, eu espero que tudo desmorone e a paisagem mude de lugar como um terreno arenoso, leve na superfície e denso no interior. Sou paciente, não calma. Um show da diva colombiana passa na televisão e nós bebemos, sem que ninguém nos interrompa, nunca deixando de incomodar. Ele me entretém o tempo inteiro, seja numa conversa inteligente, seja depois, no momento em que me chateia. Está sofrendo com a pele como eu sofro, está inflamada recorrentemente. Ao amanhecer, ele me arrebata em pensamento. Isso não é algo sexual, dessa forma que podem pensar. Isso é um balanço na mente que divaga e leva longe, como um voo para a cidade dos sonhos no norte do continente americano, de caminho a um bairro chicano na nossa imaginação. Ele gosta do meu caos violento, em atos de cansaço com raiva. Isso é magnetismo, mas a verdade é que ninguém aprova.

Distância calculada

Deixo sua casa, abandonando o Chicano como um bebê suplicante que não quer ir à escola, sozinha no portão pela primeira vez. Eu tenho compromissos nos domingos, preciso ir até a rodoviária, eu ganho muito por tudo que faço, até quando se trata de um simples favor. Ele está ácido, ainda não aprendeu o que significa algo vindo de mim, que com tudo me amedronto, ainda que siga completamente corajosa. Todos acreditam que minha mente está sempre voando, mas não se preocupem, por mais erva ou álcool que eu consuma, permaneço tendo algum material para exportar palavras sem metáfora. Aposto tudo em uma literatura estimada como barata, porém é um literatura que tem muito valor. Os adjetivos nem sempre bastam: valiosas. Às vezes, os verbos precisam aparecem para que sejam o fazer em ação. Quando pensam em mim, acham que estamos pelas ruas. Mas raramente saímos do quarto dele. Quando estamos por lá, nos sentimos seguros. Mas esse tempo todo tem sido inflamável. O Rasta, que já recebeu cartas minh...

Fria vingança

Não querem nos ver juntos, mas não conseguimos nos separar, somos como ímãs que se atraem com força física e química. O Rasta me julga, diz que o Chicano é violento. Fica no não dito que eu sou igual a ele no amor, não suportamos qualquer ameaça de abandono. Depois que as redes nos registraram juntos, as meninas amaram e os meninos choraram. Eu o trouxe até a norte, com todas as advertências. Na ameaça de se encontrarem, o Rasta desistiu, mas é porque pensa que estar com ele foi algo que fiz de propósito, não tem noção de que isso é um reencontro de almas quebradas e perdidas. Me diz que tem pena dos meus pais, quando o conheçam. Mas quando foi a vez dele, não sentiu o mesmo. O Chicano me diz, entre cervejas e baseados, que ele conheceu primeiro minha tatuagem do Aerosmith em região estratégica do corpo, lá no início de 2010. Com todos os apelidos que me dá, de dia fica doce como açúcar e, quando o álcool inflama, fica com medo de me perder e não dorme, me vigia sem cessar, me pergunta...

Descompromisso

Todos eles, sem masculino genérico, se assustam quando ajo como os homens que compõem e cantam as músicas de reggaeton que escuto, até mesmo das de funk do Chicano. Preferiria que eles se impressionassem, mas isso funciona somente com as minhas habilidades, porque meninos antiquados sempre pensam na perspectiva do passado, muito mais fácil de aceitar e se conformar do que trends virais. Esse Chicano dança todas, já lhe disse para fazer teatro, já que representar é sua natureza. O contágio das redes também reveste nossas vidas, de uma forma bem diferente. Cada vez compro mais álcool para ele, mas esse Chicano não sabe parar, ou não precisa, porque não tem compromissos fora do lar, que belo e faz as tarefas domésticas. Isso é um problema que nós, duas personalidade limítrofes, entendemos, mas eu insisto em ir trabalhar, estou sempre bem comigo mesma, forte para vigiá-lo e para discussões filosóficas com meus alunes. Minha natureza são as palavras em jogo. Não consigo dizê-las sem que co...

Carnaval fora de época

N o carnaval de fevereiro, não havíamos nos reencontrado ainda. E eu sentia algo como tatear no escuro de quarto onde eu já havia estado antes, há muito tempo. Desta vez, com março chegando ao fim e depois de 12 anos sem carnaval de rua na cidade, andamos pela avenida, e ele estava como uma criança, cantando de cor a música da sua escola de samba e se encantando com as cores, a dança, as batidas dos instrumentos. E eu em êxtase com as beldades sambantes. Ele já havia desfilado nela antes, na bateria. O álcool corria em nosso sangue, mas para ele, fazia muito mais efeito. Ele me pergunta se pode me dar a mão. Eu digo não, mas logo cedo e estou só carinhos. Na rua, garotos enalteciam suas tatuagens. Prestes a amanhecer, um desses caras disse a ele que isso era atitude de quem tem muita personalidade, andar sem camisa, até porque ele estava usando a da seleção brasileira. Essa personalidade é transtornada e está no limite, é extremamente semelhante a minha. Mas está mais quebrada, ainda n...

Sem competição

Existe algo caótico que me consome e me faz escrever. Deixo esses blocos de textos sem parágrafos, porque as palavras arrebentam sem controle, mesmo no colapso do planeta e com todas essas tarefas aparecendo, elas escorrem pelos dedos. Ele se converteu em um esporte muito perigoso, em um jogo de apostas arriscado, porque sabe que sente mais falta de mim no arrastar das horas do que eu dele, porque o meu tempo só não está preenchido quando estou com ele. O que eu sinto é presença continuada da ausência, é cotidiano da novela, do filme e do futebol, da música como alimento, um cotidiano calmo e submisso com seus e nossos momentos de revolta. Esse beijo fica colado em mim, porque quem não sabe se apaixonar é ele, não eu. Quando me grava em êxtase, confessa que ela não fazia certas coisas na cama, sabe que também tenho vocação para as artes da linguagem que não necessita palavra para simbolizar, mas tem consciência depois não pode visualizar o material em quem é o diretor, para não correr ...

Subindo de nível

Testá-lo na intimidade alcoólica dele passou a ser meu hobby no último mês, por isso acendo seu ego até o amanhecer. Ele diz que sente minha falta quando não estou, é como uma abstinência para nós dois. Gosto de conhecê-lo cada vez mais, comparando-o com quem ele era há doze anos atrás. Quanto mais bebemos de uma vodca barata, mais fico presa aos olhos dele e a todas as suas performances artísticas, sempre dançando e cantando, dentro deste quarto que passei a habitar no agitado cotidiano. Não sabemos até que ponto pertencemos um ao outro, mas ele precisar reafirmar isso incontáveis vezes, fuzilando-me com seu olhar cansado, colocando a culpa em mim por seduzi-lo, sendo que há muito estive apaixonada por ele, esta dívida foi ele quem contraiu de um passado distante. Quando assistimos os vídeos clássicos de rap norte-americano, me diz que não sou como novinhas sem assunto, porque nós temos muito para conversar, em uma competição de cultura. Falamos de cinema brasileiro e ele me diz que q...

Rotina e escapismo

Essa alma dele é como a minha, nunca se cansa de andar de uma casa a outra, de um bairro a outro, sem falhar uma semana. Ele é difícil de encontrar, mas quando quer me ver, quando está bêbado, se manifesta a qualquer horário do dia. Gosta que eu diga sim com todas as condições, dá um jeito de vir para o bairro vizinho onde fico quando não estou na casa dele. Me divirto com o cachorro dele, porque gosto de tudo que me faz feliz com carência ou obsessão, atravessando inconsciente e passando pela memória. Beirando sempre a abstinência, eu vivo em ritmo acelerado. Ele sempre lembra de me dar cigarro, ponto fraco de fumante é ver o outro sem. Pede que o ajude a escrever um livro, mas precisa de um caderno novo para escrever suas letras. Nunca cuido dele, mesmo com ressaca, porque eu sempre estou bem, mas não me esforço para nenhuma tarefa doméstica. Eu nunca fui uma mulher tão elevada e fora do esperado em toda minha vida. Quando se acalma, vemos TV aberta o dia inteiro, envoltos em fumaça,...

Ebriedade

Como saber se isso é sério, se ele está sempre bêbado, mesmo que seja de dia. Nunca acreditei no que já disseram sobre ele, sabia bem que era doce e gentil. Quando souberam que já o conheciam ironizaram "apresenta para o teu pai um desses". Como se fosse um espécime raro. Quando se estressa, por ciúmes, consigo provocá-lo e ainda seguir no controle total. Mesmo assim, a insegurança da minha personalidade limítrofe, interpreta qualquer sinal de ausência ou silêncio como abismo, essa falta, esse vazio, opera em minha mente quando estou longe dele. Quanto mais isso que não tem nome avança, mais eu percebo que estou me perdendo nos olhos negros dele. Depois da noite de hip hop e reggaeton, somente black music e latino, somente marrons, passamos pelo corredor do ciúmes a noite inteira. Me adianto na agressividade física, eu sempre vou ganhar. A noite alcança os morros que escondem Itaara. Ao vê-lo tranquilamente, num sábado à tarde, preparando e tomando mate, com um baseado terrív...