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Sinal indisponível

Sempre escrevo aqui de dentro dos fios e antenas do mundo digital. Esse é outro mundo, onde os conheci. Esse amor tem cura? Eu ultrapasso as linhas e converto planilhas em realidade. Cada hora vale um valor diferente no trabalho. Falei com meus alunos da faculdade sobre minha trajetória. Eu detesto falar em grande público, porque por ficar exposta demais, minha voz sempre treme para falar sobre mim. Exceto quando estou em aula. São reuniões, gravações, formações, aulas, documentos e envios. Nas viagens à trabalho, sempre me divirto e nunca me encarrego de me preocupar com algo diferente de estar confiante. O foco sou eu e meu espelho. Mesmo que certas pessoas do passado me perturbem com sua falta de culpa, só porque a sociedade aprovou suas mentiras. Os hotéis onde vou me hospedar são aconchegantes e divertidos. Tenho um prazer na solidão e anonimato difícil de explicar. Algumas pessoas poderiam dizer que isso é reclusão, mas sinto como mergulho em mar calmo. Gosto de ondas fortes, emb...

Pequena dose cotidiana

Quando os compromissos acabam nas férias, surgem outros, em trabalhos onde só há recessos de fim de ano e feriados, um em cada cidade diferente do sul e sudeste. Ele me chama, em chamas, sempre reclamando da vida pelos cantos, mesmo sabendo que sou a pessoa esperada que diz o quanto ele é o mais de tudo que quer ser. Nos submergimos nas música dos anos 2000, tentando escapar de agora, chegando até 2016 e ficando com a atual, triste, repetitiva e realista, com uma poesia aprisionada. A arte tem nos cobrado muito e nós fugimos amedrontados.

Atos de fala infelizes

Posso falar da vida e da teoria de dez linguistas ou filósofos da linguagem, depois dessas mais duzentas horas de aulas de linguística. As aulas estão chegando ao fim e alunas e alunos dizem que gostaram do semestre e me abraçam em despedida. Sou uma pessoa difícil com essas coisas, se é muito difícil dizer adeus, eu não confronto, eu prefiro o afastamento sem a palavra. Mas falando sobre palavras todo esse tempo, tive que dizer algumas felizes. Ansiosa por documentos e assinaturas, em meio a relatórios e planilhas, os dias correm sem freio rumo às férias misteriosas. Autografei os livros de Arco-Íris na tarde chuvosa em que estivemos perdidas entre as pessoas que estavam absortas pela copa do mundo de futebol. Fomos ao shopping como sempre e caminhamos na neblina leve que nos envolvia até o salão de beleza. Nós juntas somos inesquecíveis por onde andamos, mesmo que raramente nos encontremos, separadas pelas nossas cidades chatas onde nada de importante acontece, onde nossa vida parece...

Bahnhof Zoo

Minha mente sobrevoa algum lugar de Porto Rico ou México. A sua segue em LA, mas andou pelas estações de metrô de Berlim dos anos. Quando o texto nasce, tudo para(e). Quando as palavras dele travam em crise ansiedade. A atmosfera é atropelada e muda para pior. Não sei porque insisto em pensar que ele, o Chicano, é mesmo de antes. As pessoas se espelham nele, mas ele mudou. Talvez seja porque eu não tenha mudado tanto assim. Quando percebo, ficcionada intensamente pelo tempo, estou em êxtase com o trabalho, no ápice dos compromissos. Quando enxergo de perto, vejo, nós somos românticos que não se dão bem com o modelo de casal. Se nada parte desse modelo, por que ele se comporta assim? Ser aquariana me faz desentende o ciúmes dele, mas também entender suas letras certinhas no modelo patriarcal. Difícil acreditar estar errada. Nós somos grandes amigos que se dão bem quase o tempo todo. O tempo que sobra é o tempo em que ele está altamente ébrio, de álcool ou de ciúmes ou, por azar, os dois...

Queda

De dentro da gaiola, o passarinho amarelo caiu e está machucado em recuperação. Me culpei pelos ventos fortes e ele tentou me consolar, foi quando se deparou com minha personalidade e quis fugir. Tenho sede de escrever. Minha mente flutua com a fumaça e meus dedos tentam acompanhar seu ritmo frenético na calmaria da rotina e no frenesi do fim de semana. Ele vai embora e leva minha marica. Tem saudade de um mate, de um chima, de uma maco. Minhas pretensões nunca são boas com os garotos, eles acabam fazendo por merecem em algum momento, mais cedo o mais tarde. Com as garotas, me assusto, porque não suporia machucá-las. Tenho pouco a perder sem ele e muito com ele. Para ele, é ao contrário. Mesmo assim, passa pela porta em direção à rua para que seu pai o apanhe o leve de volta à casa, onde seu primo está de férias do sistema outra vez. Sem que nada de álcool estivesse em seu sangue. Sujeita às intervenções do outro, arrasto suas mensagens para não respondê-las e acabo por sonhar com mens...

Areia

Nunca pronuncio que vou desistir, sempre abandono tudo quando sei que vou fracassar. Mas, eu não digo, eu espero que tudo desmorone e a paisagem mude de lugar como um terreno arenoso, leve na superfície e denso no interior. Sou paciente, não calma. Um show da diva colombiana passa na televisão e nós bebemos, sem que ninguém nos interrompa, nunca deixando de incomodar. Ele me entretém o tempo inteiro, seja numa conversa inteligente, seja depois, no momento em que me chateia. Está sofrendo com a pele como eu sofro, está inflamada recorrentemente. Ao amanhecer, ele me arrebata em pensamento. Isso não é algo sexual, dessa forma que podem pensar. Isso é um balanço na mente que divaga e leva longe, como um voo para a cidade dos sonhos no norte do continente americano, de caminho a um bairro chicano na nossa imaginação. Ele gosta do meu caos violento, em atos de cansaço com raiva. Isso é magnetismo, mas a verdade é que ninguém aprova.

Distância calculada

Deixo sua casa, abandonando o Chicano como um bebê suplicante que não quer ir à escola, sozinha no portão pela primeira vez. Eu tenho compromissos nos domingos, preciso ir até a rodoviária, eu ganho muito por tudo que faço, até quando se trata de um simples favor. Ele está ácido, ainda não aprendeu o que significa algo vindo de mim, que com tudo me amedronto, ainda que siga completamente corajosa. Todos acreditam que minha mente está sempre voando, mas não se preocupem, por mais erva ou álcool que eu consuma, permaneço tendo algum material para exportar palavras sem metáfora. Aposto tudo em uma literatura estimada como barata, porém é um literatura que tem muito valor. Os adjetivos nem sempre bastam: valiosas. Às vezes, os verbos precisam aparecem para que sejam o fazer em ação. Quando pensam em mim, acham que estamos pelas ruas. Mas raramente saímos do quarto dele. Quando estamos por lá, nos sentimos seguros. Mas esse tempo todo tem sido inflamável. O Rasta, que já recebeu cartas minh...

Fria vingança

Não querem nos ver juntos, mas não conseguimos nos separar, somos como ímãs que se atraem com força física e química. O Rasta me julga, diz que o Chicano é violento. Fica no não dito que eu sou igual a ele no amor, não suportamos qualquer ameaça de abandono. Depois que as redes nos registraram juntos, as meninas amaram e os meninos choraram. Eu o trouxe até a norte, com todas as advertências. Na ameaça de se encontrarem, o Rasta desistiu, mas é porque pensa que estar com ele foi algo que fiz de propósito, não tem noção de que isso é um reencontro de almas quebradas e perdidas. Me diz que tem pena dos meus pais, quando o conheçam. Mas quando foi a vez dele, não sentiu o mesmo. O Chicano me diz, entre cervejas e baseados, que ele conheceu primeiro minha tatuagem do Aerosmith em região estratégica do corpo, lá no início de 2010. Com todos os apelidos que me dá, de dia fica doce como açúcar e, quando o álcool inflama, fica com medo de me perder e não dorme, me vigia sem cessar, me pergunta...

Descompromisso

Todos eles, sem masculino genérico, se assustam quando ajo como os homens que compõem e cantam as músicas de reggaeton que escuto, até mesmo das de funk do Chicano. Preferiria que eles se impressionassem, mas isso funciona somente com as minhas habilidades, porque meninos antiquados sempre pensam na perspectiva do passado, muito mais fácil de aceitar e se conformar do que trends virais. Esse Chicano dança todas, já lhe disse para fazer teatro, já que representar é sua natureza. O contágio das redes também reveste nossas vidas, de uma forma bem diferente. Cada vez compro mais álcool para ele, mas esse Chicano não sabe parar, ou não precisa, porque não tem compromissos fora do lar, que belo e faz as tarefas domésticas. Isso é um problema que nós, duas personalidade limítrofes, entendemos, mas eu insisto em ir trabalhar, estou sempre bem comigo mesma, forte para vigiá-lo e para discussões filosóficas com meus alunes. Minha natureza são as palavras em jogo. Não consigo dizê-las sem que co...

Carnaval fora de época

N o carnaval de fevereiro, não havíamos nos reencontrado ainda. E eu sentia algo como tatear no escuro de quarto onde eu já havia estado antes, há muito tempo. Desta vez, com março chegando ao fim e depois de 12 anos sem carnaval de rua na cidade, andamos pela avenida, e ele estava como uma criança, cantando de cor a música da sua escola de samba e se encantando com as cores, a dança, as batidas dos instrumentos. E eu em êxtase com as beldades sambantes. Ele já havia desfilado nela antes, na bateria. O álcool corria em nosso sangue, mas para ele, fazia muito mais efeito. Ele me pergunta se pode me dar a mão. Eu digo não, mas logo cedo e estou só carinhos. Na rua, garotos enalteciam suas tatuagens. Prestes a amanhecer, um desses caras disse a ele que isso era atitude de quem tem muita personalidade, andar sem camisa, até porque ele estava usando a da seleção brasileira. Essa personalidade é transtornada e está no limite, é extremamente semelhante a minha. Mas está mais quebrada, ainda n...