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Mostrando postagens de Maio, 2017

O silêncio da rua

Entro no coletivo e o vejo entrar sempre, com seu violão, um músico caminante, que toca Andrés Calamaro e outras canções, sempre com o mesmo discurso decorado. Nunca tenho dinheiro para contribuir. Todos aplaudem. Ele desce na Plaza España.
Há vezes em que um moço vende coisas no ônibus. Também nunca compro, mas observo as tentativas de buscar dignidade que todo carregamos dentro de nós.
Neste feriado, dia da independência da Argentina, vou ver uma orquestra de zamba e desfrutar da arte de graça. O movimento nas ruas é praticamente nulo. A casa está vazia, todos viajaram. Os carros não buzinam ruidosamente como todos os dias. A serenidade impera e as flores acabaram.

A correnteza

Você me configurou mal, eu virei poeta do espaço e não escritora famosa.
Eu acabei sendo outra coisa, entre viagens e destinos sem volta. Todas as paisagens transmutam, mas meu coração segue inflando, adere à tudo que acontece. O milagre da vida sempre é visto com fraqueza por mim, que sou assim, tudo que é banal me revive. Como uma planta que precisa de água.
O tempo me engole e minhas prioridades estão à deriva. Encontro-me perdida dentro da minha bagunça interior, prolixa e notável.
Quero encontrar um espaço na rua onde caiba toda a água que arrasta meus sentimentos e os leva a qualquer parte sem permissão.
O marasmo me faz sentir solidão. Mas eu me contenho e nos sonhos descanso dos dias que se sobrepõem no meu cotidiano outonal.

Amor, sexo e água

Não quero que ninguém leia além de ti. Me perguntaram numa entrevista de rádio se eu me inspirava escutando música e sobre como seria o meu livro. Eu estive projetando por anos e não obtive resultados. Quando escrevo especialmente para todo o universo, tudo flui naturalmente tanto quanto a minha capacidade de dissimular e escolher estas palavras. Eu simplesmente não rejeito toda o desenrolar de minha história ininterrupta. Eu realmente fico doente e por vezes eu sinto que eu desperdiço meu tempo e eu nunca reconheço que eu facilmente tenho a música seguinte sempre prevista em minha mente antes mesmo de que ela comece a tocar, eu estive conhecendo todas as micro-habilidades de leitura e eu quero planejar tudo muito bem. Desconcerto minha existência, pois eles (e eu) realmente se expressam bem o amor na arte, mas não sabem declarar muito bem, a demonstração é comum, como se a bondade fosse tudo, e bastasse. Nunca nos compreendemos, mas eu sei que que coisas novas surgem e nadamos contr…

A máscara

Não é a primeira vez que me falam que uso máscaras. Houve uma noite em que a conterrânea me disse que gostava do jeito que usava minhas máscaras. Não engoli isso muito bem, mas digeri.
Hoje a mineira me disse que o vinho era para mim, se chamava "mistério", e adivinhe: havia uma máscara no envase.
Não tomei até o final, eu queria sossego e paz.
Ele sempre quer ter a última palavra, quer salvar sua chance, mas a todo instante quer ela, divide tudo com ela e eu acredito no amor novamente quando vejo a paixão deles transcender o corpo e os lugares. As praias e as estradas. Eu sempre estou disposta a mudar para melhor e fazer o que é certo, não quero perder tempo errando.
Percebo que minhas tramas tem estradas longas e escuras, o frio faz congelar até meu coração, mas minha alma está sempre quente e disposta a lutar. O coração sempre na forca. O espírito sempre voando alto, eu sonho alto, eu vivo longe, distante do meu lugar, num destino indeterminado.
Você não precisa fazer nad…

A madrugada pra nós

Todas as tuas poesias se transformam em esperança de uma nova vida. Diferente da que eu tinha... Eu sempre fumada, quem conhece bem sabe. Quando não exponho, eu interiorizo, porque eu não quero falsos amigos. Então venha até a minha cidade e fale sobre o que interessa, não precisa nem rimar, quando não existir lugar para tirar a roupa. Tu te calarias diante de mim, quando percebesse que eu te levo em qualquer lugar e pra bem longe. Onde tu caminhas sempre eu já estive, fui em cada parte linda, em todas onde havia cheiro de maresia, eu senti e vi o mar de perto, naveguei nos barcos de cada cidadezinha perto, praias que hoje destruíram e só restou alto índice de poluição. Eu pretendo voltar, tu és um bom motivo para voltar às minhas raízes no litoral sul do rio grande. Eu amo esse lugar, por todas as ruas eu devia andar, mas não posso, eu escolhi outro lugar, eu deixei isso para trás porque estava escrito assim, é absurdo e falho. Olhe dentro dos meus olhos e me veja amadurecer devagar e t…

Trashumante

Chegamos e tudo era verde, nos juntamos a multidão e dançamos em sincronia pela terra, pachamama. Somos el monte que marcha, repetíamos. Era tudo natural e nossos movimentos eram intensos, a poesia folclórica era da América, todos os americanos estavam unidos, mas havia muito mais latinos. Tomamos cerveja e comemos empanadas, a festa tardou em terminar e a rua fria nos anuviava a mente como um sonho atrapado na memória: insólito, mas satisfatório.
Meus pensamentos atavam e desatavam, em uma tentativa constante e fracassada de pertencer ao meu lugar e ao âmbito social mais próximo do meu chão de convivência. Era estrangeira, porém não forasteira.

Sinal verde

Sempre dez graus e muitos filmes argentinos com atores espanholes misturados para distrair-me. Os latino-americanos tem muito em comum, mas fumam prensado. Enquanto que os europeus tão perfeitos são os que conseguem as flores e podem pagá-las. Aqui fumo somente flores. Muitos trâmites, filas, pesos para ter um visto permanente para viver. Além poucas cobertas para esquentar-se. Ando incansavelmente por quilômetros, enquanto os carros passam rápido e te molham e todos os museus podem ser explorados nas ruas frias. Posso sentir saudades, mas ao mesmo tempo me sinto livre. Os sotaques se misturam e eu sempre me encontro comigo mesma no fim da noite, a madrugada me conhece bem. 

Liberdade

De longe observo minha loucura circulando lentamente. Desvanecendo-se na fumaça. Terna e confusa, parecia um velho furacão em mim. Catastrófica, porém com um marasmo alternativo. Eu gostava que não fazer muitas coisas e também era devorada pelas horas arrastadas.
Precisava encontrar desculpas que me fizessem parar. Eu estava na estrada certa para desvendar-me.
Por quanto tempo estaria livre?