Um estranho familiar
Estou furiosa com o pôr do sol ao anoitecer, que insiste em não atender meus pedidos conscientes. Houve uma vez que queimei meu diário. Totalmente diferente do que tenho hoje, que incendei por si só, porque as páginas transbordam com toda densidade que escrevo. Tudo desliza violentamente, como uma onda gigante que invade e avassala, te levando para mais longe da areia e te trazendo de volta à margem. Você gosta de brigar e eu arruino tudo brigando, objetos e corações em pedaços. Parece até que é proposital. Parece até que você não me conhece como eu sei que sim. Quando você briga e os planos se esvaem, nunca é culpa sua. Você sempre está certo e nunca erra. Quando está rindo, eu fico tranquila. Eu sempre tento ser uma pessoa melhor com você. Penso em você enquanto as horas escorrem e as nuvens se movem ininterruptamente. Impossível não te recordar ao avistar o edifício condenado (o dia inteiro, sem cessar), onde subiu ao topo na nostálgica juventude. Essa mala vai me acompanhar a outro lugar, porque eu não suporto estar suspensa no mesmo lugar por tanto tempo. No fundo, é culpa do capitalismo que nos afoga. É impossível bancar este amor agora. Eu estou sozinha em alguma estrada vazia. Isso é permanente. Cada vez que você me liberta, me deixa mais presa ainda, ainda mais alto e por mais tempo. Depois de apertar o pause, dá pra dar play na gente de novo?
As tuas palavras são incêndio. Estavas sem fôlego ao escrever essas palavras e ainda assim, depois de escrevê-las, fumou um cigarro. Sentimentos que são avassaladores acabam transbordando, a fumaça cega todo o ambiente, mas depois tudo volta ao normal até a próxima rodada. Nada é de fato urgente, exceto entrar tão fundo nas próprias emoções, como se entra no mar, às vezes é preciso não dar pé.
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