Carnaval fora de época
No carnaval de fevereiro, não havíamos nos reencontrado ainda. E eu sentia algo como tatear no escuro de quarto onde eu já havia estado antes, há muito tempo. Desta vez, com março chegando ao fim e depois de 12 anos sem carnaval de rua na cidade, andamos pela avenida, e ele estava como uma criança, cantando de cor a música da sua escola de samba e se encantando com as cores, a dança, as batidas dos instrumentos. E eu em êxtase com as beldades sambantes. Ele já havia desfilado nela antes, na bateria. O álcool corria em nosso sangue, mas para ele, fazia muito mais efeito. Ele me pergunta se pode me dar a mão. Eu digo não, mas logo cedo e estou só carinhos. Na rua, garotos enalteciam suas tatuagens. Prestes a amanhecer, um desses caras disse a ele que isso era atitude de quem tem muita personalidade, andar sem camisa, até porque ele estava usando a da seleção brasileira. Essa personalidade é transtornada e está no limite, é extremamente semelhante a minha. Mas está mais quebrada, ainda não conseguiu se reinventar. Desde a tarde, pelas vielas e que levam até o outro bairro, atravessando os trilhos, garotos perguntam a ele das rimas. Ele já havia comentado que queria voltar para a arte. Não sei em qual momento ele se perdeu, se foi quando se deparou com o luto, por parte ou por completo, ou quando ele e ela o traíram sem nenhum remorso. Mas eu mesma não poderia avisá-la sobre o amigo infiel dele e o imbecil que aquele cara sempre foi. Como eu poderia explicar a ela que ele era o melhor e que ela apostou na opção errada, porque ele sempre foi o melhor que poderia ser, mesmo com tantas falhas e fragilidades. Foi melhor assim, porque agora ele se sentiu com um pouco mais em paz perto de mim, mesmo que ainda sinta muito por ela. Na avenida, ele atuou como um guri completamente rebelde e contagiou como um torcedor fanático, como é amante da arte do futebol. Ele sabe, e eu reitero, que quem cuida dele na rua sou eu. Não me importa que todos vejam, não me importa que não queiram nos ver juntos, não importa que nossas amigos não tenham conseguido ir, o que importa é que ele possa estar feliz através da minha coragem de levá-lo com responsabilidade, sem medo de besteiras, porque todo mundo merece se divertir. Os jornalistas e até o prefeito estava lá também. Os integrantes das escolas de samba brilhavam e todos vibravam com as cores e os sons. Pela tarde, sua família foi muito gentil, falamos sobre ele, disseram a ele que ele precisava trabalhar para ter um relacionamento comigo. Não é só ele que espera uma atitude minha, também espero algumas dele. É como se estivéssemos indo tão devagar para a viagem durar mais e tão rápido para chegar em algum lugar. Mas esse lugar é belo ou sombrio? Na viagem, está tudo tão confortável e alucinante. Os tambores da macumba sempre tocam até tarde no bairro. Andamos pelo bar que tem uma jukebox e toda sua família quer que ele vá para a casa e se cure do porre, até mesmo me dão remédios para que ele durma, mas não posso dar, porque ele escolhe não comer. Não pode ser perigoso se apaixonar e querer cuidar de alguém assim. Não se deve levar à sério todas as besteiras que ele diz, nem mesmo tentativa contê-lo, pois sou doida e acho graça, como na escola com os pequenos, eu não sei não ter humor até o fim. Nas inseguranças dele, vejo verdade e afeto, vejo razão e certeza, me encontro na instabilidade e me fascino com a rebeldia. Eu nunca me canso de estar pendente do seu amor obsessivo, que quando amanhece se desespera para saber de nossa situação, assim como deseja em voz alta atirar pedras na empresa de segurança onde vivem ela, a proprietária da empresa e do coração dele, e o amigo infiel, ambos amantes da cocaína. Ele seria perfeitamente capaz de violentar uma mulher de novo, essa mulher poderia ser eu, mas ele seria violentado de volta. Na multidão, diz que me ama, diz que quer ter um filho e que cuidaria dele, inventa suas histórias loucas e fala com vários conhecidos. Somos intensos e ficamos sempre perto da caixa de som para perder nossas mentes na multidão, vivendo ao cem essa história de amor sem proteção para a queda.
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