Ebriedade
Como saber se isso é sério, se ele está sempre bêbado, mesmo que seja de dia. Nunca acreditei no que já disseram sobre ele, sabia bem que era doce e gentil. Quando souberam que já o conheciam ironizaram "apresenta para o teu pai um desses". Como se fosse um espécime raro. Quando se estressa, por ciúmes, consigo provocá-lo e ainda seguir no controle total. Mesmo assim, a insegurança da minha personalidade limítrofe, interpreta qualquer sinal de ausência ou silêncio como abismo, essa falta, esse vazio, opera em minha mente quando estou longe dele. Quanto mais isso que não tem nome avança, mais eu percebo que estou me perdendo nos olhos negros dele. Depois da noite de hip hop e reggaeton, somente black music e latino, somente marrons, passamos pelo corredor do ciúmes a noite inteira. Me adianto na agressividade física, eu sempre vou ganhar. A noite alcança os morros que escondem Itaara. Ao vê-lo tranquilamente, num sábado à tarde, preparando e tomando mate, com um baseado terrível que levei e uns quantos palheiros, o vejo tão real, tão mais real do que éramos há doze anos. De repente, estou conhecendo uma pessoa nova que faz parte daquela mesma. Isso é tão fascinante que gosto de ficar te estudando, enquanto você aproveita cada momento como se fosse o último. Eu sigo observadora e calada na maior parte do tempo. Ele sabe agora que meu pai era militar do exército e segue querendo ser grudado em mim. Segue querendo se vingar da ex e o atual dela, seu ex amigo. Segue querendo que todos vejam como ele está melhor. Gosto de como me traz as comidas que cozinha, de como mantém tudo organizado, de como se envergonha de nossa situação e de sua própria casa com goteiras, ele não percebe que tudo isso é normal. Eu rompo as ideias quadradas de um capricorniano tomado pelo machismo, que teme as opiniões de qualquer outra pessoa do gênero masculino. Sinto uma espécie de pena por esperar demais das pessoas, elas só não estão no seu melhor momento. Também sou uma dessas pessoas. Ele repete que se viajo sem ele, o que temos se acaba. Só porque quer, me responde depois que pergunto "por quê". Pelo menos ele conseguiu dois baseados bons, já que levei gin. Pelo menos ele pediu a carteira de cigarro do seu pai para mim. Pelo menos eu gosto bastante dele, ainda que duvide disso e me pergunte o tempo todo madrugada adentro. Nos ameaça essa liberdade, é como se estivéssemos presos como o cantor de trap e funk que é filho de um dos narcotraficantes mais importante do Brasil. Ouvimos o disco inteiro dele e depois ficamos juntinhos assistindo série, lógico que fui a primeira a dormir no abraço dele, em meio às dezenas de pôsteres de tatuagens, campanhas políticas, desenhos, cartazes dos seus shows, tudo isso se incorpora ao nosso real que inventamos, em um cotidiano que pretendemos compartir. Me pergunta se eu não percebi ainda que ele é romântico.
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