Névoa e luz solar

A lua cheia estava estampada no céu. Segui pela viela escura de carro com motorista, espiando para ver se estavam me perseguindo. Sensação estranha esta a de que estávamos sendo observados. Ele demorou horas para perder o medo de que aquela pessoa chegasse a nos interromper com violência. Ele só tem uma faca, mas sempre corre atrás de confusões. Garanti a ele que tinha a minha proteção, que meu jogo de palavras mutilante é muito mais forte do que brigas ou do que suas letras de gangsta rap. Nos conhecemos no seu show, cada dia que nos vemos, um de nós relembra mais detalhes e isso sacode nossa juventude. Me prometeu mais memórias desde que nos falamos pela primeira vez dessa última, porque temos alguma história, uma que nos salva de todas as decepções que vieram depois e que seguem nos atormentando, o que se comprova pelo pesadelo que ele me conta. Quanto mais fumava marijuana, bebia uma garrafa de vodka e me ajudava com a garrafa de gin, mais perdia o medo. Mas havia outros problemas em sua cabeça, eu era só mais um. Descubro que as pessoas tem suas condições próprias e seus próprios limites. Desvendei-o e vi que por trás de seu orgulho mínimo, se escondia uma fragilidade máxima. Dentro do real, ele era o possível de sua existência e eu transcendia sua vida, enquanto ele me garantia em sentenças completas que era a droga que eu precisava, porque admiti que estava viciada. Desta vez, não fomos interrompidos pelo plantão na televisão, avisando mortes de guerra. Enquanto o mundo sofria, fingíamos que nosso mundo cabia dentro do quarto sem luz. Levei-o ao meu mundo e mostrei-lhe canções de reggaeton, fazendo sua mente machista flutuar em letras de mulheres independentes, além de nossa admiração estrutural pelo flow de cantores machistas. A estrutura que nos altera escapa, bem na falta do que não temos. Tentamos completar um ao outro, no embalo de uma paixão dita em voz alta que já estava imparável no meio da semana. Ele me olha nos olhos e mais uma vez relembra a primeira vez que nos falamos este ano. Tento arrancar dele a data exata, como se estivesse jogando com a minha mente, numa partida da qual nenhum de nós queria perder, só para deixar o orgulho sobre todos os medos que tentamos esconder, mas estão expostos e todos nos veem na rua do centro ao bairro em plena luz do dia. Vi a cidade chegando a suas casas no sol que estava a ponto de se esconder, em uma velocidade que só queria chegar em casa. Me senti livre e menos doente por não precisar de muito para viver, por poder caminhar, ainda que tivesse uma doença crônica de pele que me doía de forma lancinante. Nos separamos em caminhos opostos, mesmo que sejamos vizinhos, me beija na rua perto do colégio e me sinto exatamente como quando na adolescencia, nos escondíamos para beijar-nos. Já faz mais de um mês e eu errei a data que ele perguntou, mas depois admiti meu equívoco. Descobri o que você é para mim: meu chicano gangsta. Me mostras canções de gênero urbano clássico mexicano, enquanto deixo sua mente absorver o moderno colombiano, porque sempre estou em alta quando se trata de arte. Vamos fundo no hip hop americano, sabemos cantar e até trocamos fofocas de cantores, quem namorou quem, quem faleceu, quem foi cancelado. Sabemos muito do pop e assistimos referências que reconhecemos, até mesmo penso em um filme que não sei se você conhece, então calo. Um segundo depois, você me pergunta se já assisti "de olhos bem fechados", cito os atores e mergulho na corrente de uma amizade que implode nas paredes do quarto sem porta. Você confessa que estava com vergonha do seu quarto, logo para mim que nunca liguei para nada material, embora pareça um sonho nebuloso quando ele me diz que posso me abrigar em sua casa, que está prestes a desmoronar ou ser tomada, já que sou uma grande patricinha. Durmo por pouco mais de uma hora, enquanto ele segue bebendo e fumando sem parar, numa relação tóxica pela fumaça e pelo álcool, mas agridoce pela conexão e risco. Nos coloquei em um risco que não importa tanto em meio a guerras, criminalidade, mudanças climáticas severas. Estávamos mesmo errados em nosso modo de vida ou é o mundo que nos estava engolindo vorazmente, mesmo que seguíssemos tão firmes que sentíamos uma coragem absurda e surreal. Conheci sua família, seus problemas e tropecei nas conversas de que você e seu irmão poderiam precisar de mim nas adversidades que os atingem, num modelo em que meu papel materno poderia até mesmo subverter a ordem do patriarcado, no qual nunca deixei de estar inserida explicitamente. Concluí que eu e ele fomos muito bem criados, em classes diferentes, fascinados pela mesma estética latina. Ele ficou colado em mim como tatuagem. Diz que não me ama, mas que gosta muito de mim. Que peso tirou da minha mente quando explicou que me quer só para ele, tentando sempre apagar o mais profundo que disse antes na vulnerabilidade da bebida, sabendo que isso é impossível. Sua versão alcoólica mais forte é a mais verdadeira, não se pode cancelar o envio do que se diz como fazemos na internet. Explica que seu amigo fiel, como na canção de funk que mostrou bem brasileira, do mesmo grupo de rap, não o que foi expulso por tomar sua ex-namorada dele - lamento informar que ela escolheu ir com ele, o wanksta que mente sobre armas, mas joga pedras - disse que agora eu era "deles", que poderiam me proteger com acesso a tudo do submundo. No fundo, você sabe que está mais encrencado do que eu, mas segue querendo me sequestrar. Mesmo que saiba muito de atualidade e adore discutir política, a ele lhe peço cuidado com meus óculos moschino, não estou usando o D&G hoje. Começamos pela sua obsessão por funk, especialmente do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, fomos ao reggaeton, ao gênero urbano, ao rap, ao hip hop, ao piseiro e ao sertanejo raiz. Me diz tudo que eu já sabia: que me achou atrativa com sua camiseta do Brasil na última vez. Você fala sobre futebol e eu finjo que entende. Não sou mais uma blogueira, vou publicar um livro, já não é suficiente você lutar para ser o centro das atenções. Ficou tanto mais por dizer tanto de fofoca pop quanto de músicas chilenas, vai ficar para o próximo fim de semana. Enquanto espio a cidade no meio das árvores da sacada da minha casa, lembro que em seu quarto vemos um pouco dos morros nebulosos quando amanhece belamente, mas vemos predominantemente a parede da casa vizinha nos sufocando no vazio branco. Você insiste que vou permanecer nessa relação que acreditamos existir até que eu me canse de você. É como se eu pudesse agora decifrá-lo como era há doze anos e o que se tornou, além do que falou por mensagens de flerte incontornável, como a linguagem que ousamos desafiar, tentando ser os melhores ao jogar com as palavras, seja em versos ou argumento, sempre perdendo para o sentido que escapa, ficando sem saber se é palavra ou ação em palavras. Você quer meu anel de cristal energizado e eu te peço em casamento de brincadeira, para que seja meu noivo, para que peça em voz alta por exclusividade. Tenho várias chamadas perdidas no meu celular e mensagens apagadas, mas eu já as havia lido, mesmo que a plataforma estivesse programada para não advertir que eu havia visualizado. Está perto de que seja insustentável que toda a cidade saiba, se choque e não nos suportem mais. Por isso, nos iremos a outro bairro onde temos alguma proteção, já que ele insiste na beleza do meu sorriso. Explicito com quantas mulheres já dormi, deixando claro a impossibilidade de contar da mesma forma considerando o gênero masculino e o deixo sem palavras. Tudo isso para retribuir todas as fotos dos momentos da história de sua vida e as mensagens atuais, porque não me disponho a mostrar muito de mim.

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