Subindo de nível

Testá-lo na intimidade alcoólica dele passou a ser meu hobby no último mês, por isso acendo seu ego até o amanhecer. Ele diz que sente minha falta quando não estou, é como uma abstinência para nós dois. Gosto de conhecê-lo cada vez mais, comparando-o com quem ele era há doze anos atrás. Quanto mais bebemos de uma vodca barata, mais fico presa aos olhos dele e a todas as suas performances artísticas, sempre dançando e cantando, dentro deste quarto que passei a habitar no agitado cotidiano. Não sabemos até que ponto pertencemos um ao outro, mas ele precisar reafirmar isso incontáveis vezes, fuzilando-me com seu olhar cansado, colocando a culpa em mim por seduzi-lo, sendo que há muito estive apaixonada por ele, esta dívida foi ele quem contraiu de um passado distante. Quando assistimos os vídeos clássicos de rap norte-americano, me diz que não sou como novinhas sem assunto, porque nós temos muito para conversar, em uma competição de cultura. Falamos de cinema brasileiro e ele me diz que quer assistir comigo o filme brasileiro da premiação do Oscar. Me conta que levou reggaeton ao outro bairro na sul. Ouço com incômodo toda a moral que dá a seu amigo fiel que vive lá. Avise a ele que já o roubei dele e pronto. Me diz de novo que sou mais inteligente. Mas digo que ele é mais culto, com os detalhes que conta, nomes, tatuagens e referências sociais. Provavelmente, assustei esse homem tão fragilizado e isso é tão humano. Sempre aprendo com o modo de vida dele, não posso julgar praticamente nada do que ele faz, não sei como eu estaria se estivesse na pele dele. Ele me desloca pela memória, me pega pelos cabelos. Quer que diga a ele que o amo, quer saber se sou sua, quer que eu o procure nas redes. Digo a ele que se é para ser machista que seja em todas as coisas, que é ele quem deve me procurar no chat. Tem medo de estar inteiro, porque sabe bem que eu posso quebrá-lo. Diz em voz alta que, se não estamos juntos oficialmente, não pode ser traído. Fala que seu celular não tem senha e que basta deslizar. Digo a ele que deve ser seu sonho que eu queira pesquisá-lo, porque eu já tinha percebido suas tentativas de que eu pegue quando ele sai e deixa a tela aberta. Diz em voz alta que vou trocá-lo e que não é suficiente para mim. Me vira e desvira, me deixa do avesso e sempre quer mais uma dose, enquanto bebe e fuma sem parar enquanto faz tudo na vida. Quando por fim nos levantamos da cama, perto do anoitecer de sábado, entrego meu primeiro livro recém lançado a ele sem dedicatória para que se impressione e veja que eu também sou uma personagem eterna e contagiante. Digo que pode virar um filme e ele escolhe os atores para o papel dele. Mas esse livro não é sobre ele, é pura ficção, violência e crime, como as novelas que ele adora acompanhar na televisão. Eu estava aqui o tempo todo e perdemos muito tempo. Ele segue relembrando do novo casal, sua ex-namorada e seu ex-amigo, sabendo que eles não são mais o casal do momento, que nós agora ocupamos este lugar na cena. Em breve, todos saberão, não há como escapar.

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