A Fugitiva

Sabia que terminaria assim, em pura desilusão.
Não que eu não esperasse outra coisa. Eu esperava sim. E o nome dessa coisa que esperei por tanto tempo e que nunca se manifestou é mesma coisa pela qual as pessoas correm atrás a vida toda, a mesma coisa que ilude tanta gente, nem que seja numa simples e dura fração de segundo. O problema é que essa coisa não se define igual para todos e nem ao menos liga para dizer quando vai chegar, não diz quanto tempo vai ficar e nem deixa bilhete para avisar por que foi embora.
Essa coisa é insensível, dissimulada e segura de si. Ela ri de nós. Da nossa esperança, da nossa capacidade de se apaixonar, de gostar de alguma coisa, nem que seja a mais bizarra, a mais louca, a mais excêntrica.
O nome dela é felicidade e ela sempre fugiu de mim.
No fim, acabei por perdê-la de vista, pois quando desviei o olhar para ver onde estava pisando percebi de longe que ela estava fugindo, mas não pude ver direito para onde ela correu e em que esquina ela dobrou.
Só sei que pude ver claramente seus olhos arredios e orgulhosos combinando com seu sorriso macabro de quem enganou alguns idiotas por aí e sabe que eles nunca a pegarão mesmo que a enxerguem em algumas janelas de lugar nenhum.
Mas quem sou eu para falar em fugitivos?
Eu fujo de tudo e todos e ainda me atrevo a reclamar da felicidade.
Fujo do trabalho, da escola, dos pretendentes, dos amigos, do risco dos gastos desnecessários, das sensações nunca antes sentidas, dos sabores que nunca experimentei, do meu talento que não descobri, da política que precisa se resolver, da personalidade que preciso aprimorar.
Fujo.
E, fugindo de todas essas coisas e muitas outras, percebo que estou fugindo de mim mesma, e que talvez eu nunca seja capaz de achar meu caminho de volta.
E quem disse que quero?
Talvez seja tarde demais para voltar, pois eu nem mesmo deixei as migalhas de pão marcando caminho.

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