Sobrevindo colorido
Houve um tempo em que eu
escutava música clássica com o coração, que eu era pura de corpo e alma, que eu
me importava. Houve um tempo em que minhas mentiras eram sinceras, em que eu
tinha mais tempo, em que eu tocava piano, em que eu tinha as pessoas que eu
amava perto de mim, em que eu não tinha nada que tenho hoje (essas coisas que
eu queria tanto e que agora eu não sei o que fazer com elas), mas houve um
tempo em que eu saberia se tivesse essas mesmas coisas. Houve um tempo em que
eu tinha mais dinheiro e não conhecia magia, em que eu estudava mais e lia mais
e escrevia mais poemas e usava óculos. Houve um tempo em que eu sabia rimar e
conhecia meus vizinhos, em que eu era mais saudável e era virgem e eu assistia
mais filmes de suspense na TV. Houve um tempo em que meus pais brigavam mais
comigo, mesmo que eu tenha feito coisas insignificantes perto das que eu faço
hoje em dia, em que eu era incapaz de trair, em que eu me importava com o tempo,
em que eu sentia menos sono, mas mesmo assim dormia mais. Um tempo em que eu
não olhava muito no relógio e tinha muitos amores e voltava feliz para casa na
escuridão do amanhecer e no silêncio que ninguém sabia. Houve um tempo em que
meu deus era transcendente, em que eu sabia amar sem medo de sofrer, porque era
desprovida de decepções, em que eu tinha a ficha limpa na polícia, em que eu
não era fumante, em que eu raramente bebia e nunca tinha fumado maconha. Houve
um tempo em que eu escutava somente rock, pintava os olhos de preto, em que eu
não tinha experiência e não era escritora. Houve um tempo em que eu não
existia, e as pessoas escutavam CDs, vinis, assistiam fita cassete, tinham mais
filhos, menos dinheiro, compravam mais revistas, mais HQs, mais livros, um
tempo em que não havia DVDs, e-books e programas de downloads. Houve um tempo
em que todos confiavam em mim e eu era inteligente e era até bonita. Houve um
tempo em que sonhos eram maiores, mas pareciam bem mais fáceis de serem
realizados. Houve um tempo em que eu não conhecia a morte assim tão de perto e
não chorava tão facilmente. Houve um tempo em que a minha felicidade precisava
de coisas pequenas para ser alcançada, porque era simples e semicompleta. Houve
um tempo em que não doía tanto esse vazio que me faz buscar cada dia mais algo
que eu nem sei o que é nem ao menos por onde anda. Houve um tempo em que eu não
tinha uma subvida.
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