Tempestade de verão
Ela gostava de ver a fumaça do cigarro
subindo, devagar no vento, voando livre até o céu, dançando até desaparecer por
completo. Infelizmente ela não podia fazer o mesmo, não havia maneira de fugir.
As responsabilidades estavam ali, ela já não era mais uma criança que brinca
sem precisar pensar no amanhã, sem planejar nada além da brincadeira seguinte.
Sentia-se como uma mosca presa em um armário, esperando que pelo mesmo descuido
pelo qual a colocaram ali, tirassem-na sem perceber.
É estranho como as crianças eram
relutantes em perder a inocência mesmo estando contaminadas pela sociedade.
Eram tratadas como adultas e gostavam disso sem nem mesmo perceber que estavam
lutando por dentro para serem crianças e sem saber que quando adultas dariam
tudo para que não tivessem crescido nunca. Como Peter Pan na Terra do Nunca.
Todos esses anos ela tinha se comportado
com uma criança, mesmo tendo vinte e poucos anos. Ela nunca tinha se importado
realmente com os sentimentos das outras pessoas, não queria saber que eles
realmente se preocupavam com ela, se a amavam de verdade, ou se algo poderia
acontecer e estragar tudo o que já haviam construído. Simplesmente porque ela
nunca se deu conta de que a vida das pessoas era movida por sonhos,
responsabilidades, objetivos e planos. Pois para ela bastava que se fosse
vivendo como se podia, comprando o que se podia, arrumando o dinheiro da melhor
maneira que podia, dando um jeito. Mas não é assim que funciona, isso se chama
acomodação. Uma acomodação que a engoliu todos esses anos e a fez de idiota
para traí-la no final. Mas ela não era a única que pensava assim, conhecia
muitas pessoas que tinham o mesmo senso de vida que ela, mas cedo ou tarde
mudaram seus destinos, planejando mais, construindo planos, seja sozinho ou com
outras pessoas. Apesar de ela ainda não entender direito o que significava
trabalhar duro para viver não tão bem quanto se espera, era isso que ela
pretendia fazer, queria buscar um jeito de viver como a maioria das pessoas do
mundo, lutando e tendo deveres a cumprir.
Ela precisava adquirir um modo novo de
levar a vida, tinha que tentar manter-se bem, ter o quê comer, o quê vestir,
pagar água, luz, telefone, aluguel. E para isso precisava arrumar um emprego;
qualquer um. Aos poucos já seria capaz de se virar sem pedir nada aos seus
pais, sem ser sustentada por ninguém, sem depender da boa vontade dos outros e
sem se aproveitar do amor incondicional que a família geralmente proporciona.
Sentia-se afogada em sua própria
reclusão de seu inconsciente nulo e ao mesmo tempo agudamente sensato e
racional. Sua mente pesava e girava com um turbilhão de sentimentos. A emoção
era tão grande que ela já não conseguia ordenar seus pensamentos.
É obvio que Rosana estava com vontade de
permanecer ali, calada, firme na própria letargia, mas doía tanto relembrar dos
erros e atitudes doentias que tinha tido. Era tão difícil se desamarrar das
cordas que estavam quase arrebentando, mas que pareciam que se houvesse um
pouco de quietude elas poderiam resistir a qualquer puxada repentina. Na
verdade as cordas estavam gastas, pois há anos estavam se corroendo sozinhas,
através da força da lei da vida e não da vontade de algum humano desavisado que
não possui a capacidade de entender que as vidas são corpos separados, e que
apesar de as pessoas interagirem umas com as outras não há meio de monitorar o
mistério egoísta do verbo viver na vida dos outros.
Mas agora nada disso importava mais, as
malas estavam feitas, bem ao lado dela, eram pequenas, era tudo que ela tinha.
Caixas grandes estavam cheias de livros, cartas, filmes e papéis, tudo ao lado
da cama, já desmontada. Ela levaria todos os móveis do quarto, porque não
haveria outra coisa útil a fazer com eles.
Rosana sentou-se ao lado das caixas e
chorou, como há muito tempo não fazia. Era tempo de abandonar o ninho e
enfrentar o mundo. Pela janela, ela via o céu sacudindo pelos relâmpagos da
chuva de verão. Não havia vento, apenas um calor abafado, e os pingos grossos
molhavam os vidros.
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