Reflexos
Ela
olhava a própria imagem no espelho tentando entender porque os anos haviam
deixado-a assim. As rugas tomavam conta do seu rosto e cada traço era resultado
de dor, sofrimento, alegrias, preocupações e amores, entre outros mil
sentimentos que marcam os corpos de qualquer pessoa. Sentiu um peso sobre si,
começou a tremer e viu que tantos anos de vida não suportavam a morte, não
compensavam a passagem, porque não era possível comprar o tempo. O que restava
de sua vida era a poesia dolorosa da saudade, e seu passado começou a ecoar em
sua cabeça e sua memória falhava em cada tentativa de lembrança. Juventude e
velhice se fundiram num contraste vibrante, fazendo com que nada mais fosse
encarado da mesma maneira, porque pensando bem, ela percebeu que não houve
tempo perdido, pois tudo valeu a pena no momento do desejo impensado.
Olhou
fundo em seus próprios olhos e viu a bagagem da experiência presente no seu
olhar cansado. Sentiu a lentidão de seu raciocínio e relembrou vagamente
flashes de sua adolescência. Momentos doces passaram pela sua memória e aquela
liberdade de antes era tão intensa que até voar se fazia possível. Sentiu suas
pernas doerem e lembrou-se de quando corria como ninguém sem nem mesmo se
cansar depois.
Sentia
a morte se aproximando, trazendo com ela a doença como aviso e pretexto. Queria
gritar, mas sua voz estava fraca, queria correr para algum lugar, mas seus
ossos estavam frágeis e cansados, queria voar, mas os sonhos já não estavam ao
seu alcance, pois a insônia se fazia presente durante a noite e no escuro,
fantasmas percorriam seu quarto, ela os via claramente e desejava nunca ter
duvidado de seus propósitos.
Então
olhou novamente no espelho e enxergou por alguns segundos seus vinte cinco anos
em seu rosto, e chorou, soluçava alto, em prantos. Não havia solução, não era
possível nadar contra a corrente, nunca venceria sua batalha contra o tempo. Era
inevitável envelhecer, entretanto era mais inevitável ainda não lamentar o
envelhecimento. Com oitenta e cinco por cento de uma vida vivida, ela sabia que
o fim estava próximo. Nunca tinha pensado direito em vida após a morte, mas não
queria preocupar-se com isso agora, tanto fazia, já estava cansada, vigor já
não fazia parte de sua vida.
A
única coisa que ela possuía de verdade era uma personalidade cheia de acúmulos,
alguns bons e outros ruins, porém ainda estava em constante metamorfose, porque
personalidades formadas simplesmente não existem. E isso fazia com que a idade
não influísse em absolutamente ninguém, pois experiência não tem a ver com
números e sim com intensidades.
Sentiu
um sono profundo invadir seu corpo e uma leveza soprar sua alma, havia chegado
a hora e ela nunca estaria preparada. E já não doía tanto assim, as decepções
já não eram importantes comparadas a coragem de ter enfrentado as horas todos
esses anos. Então se entregou ao desconhecido, afinal viver é um tiro no escuro
e morrer também.
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