Grades Brancas


 As borboletas eram tantas! Por que ninguém passava e pegava ao menos uma com as mãos e levava para seu mundo? Pois só assim poderiam ouvi-las cochichando em seus ouvidos e dizendo coisas significativas e reais o bastante para serem refletidas e realizadas.”
(Ao som de) Arde el cielo - Maná

Ela olhou para o lado; Uma lágrima escorreu de seus olhos negros, e depois outra, e outra e mais outra. Por quê? Por que ninguém acreditava nela? Tudo era tão falso. Tudo de plástico. Tudo descartável. Mas o pior é que era tudo sem motivo, a não ser no mundinho particular dela. Mas para quê ter sentido o que nem mesmo tem utilidade?
         Repressão, repressão. Repressão e ponto final. Ah, mas pelo menos tinha alguns cigarros e nem estava chovendo. Mas estava nublado, muito nublado. Ela tinha visto sim, tinha visto uma borboleta verde. Mas por que ninguém acreditou, se ela nunca mentiu? Se ela sempre fora realista? Bom, nada mais importava mesmo além de seu cheiro, ah, que cheiro de flores do campo. Toda vida fora assim. Aliás, que vida, se tinha apenas dezenove aninhos? Pois é, tinha pouca vida, mas histórias longas para contar. E quando contava ninguém entendia, mas era tudo tão claro. Tão real. Tão simples.  Mas a simplicidade parece que fazia parte daquele grupo de inutilidades definitivas.
         Ela corria, corria, corria e nunca chegava, mas teve sempre a esperança de chegar, mesmo sem saber aonde. Traçar objetivos; está aí outra coisa que pode ser classificada como inútil. Relembrar o passado era bom, mas levava tempo até lembras-se de tudo... Mas para quê pensar, pensar, pensar, se nunca acreditariam nela.
         Afinal ela morava num lugar muito branco, com pessoas vestidas de branco, um belo jardim (com borboletas verdes) e seus braços estavam completamente picados. Aquele lugar tinha um cheiro de mar, um cheiro salgado. As pessoas lá eram difíceis de lidar e quase ninguém se falava ali, a não ser quando gritavam alto. Mas logo os gritos cessavam.
         Ela não mentia, ela dizia o que enxergava realmente, afinal para que mentir? É tão difícil assim dizer a verdade quando se está enxergando borboletas verdes e lindas? As mais exuberantes que já vira? As mais originais e amáveis borboletas do mundo estavam ali, livres, aos olhos dos passantes, mas ela tinha a impressão que nenhum deles gostava de borboletas, afinal por que ninguém parava para admirá-las? Deviam ter muitas coisas para fazer e também milhões de problemas para resolver, milhões de compromissos que não tinham fim e ela ficava pensando por que tinham que cumprir obrigações tolas em vez de observar as doces e vivas borboletas verdes que voavam pela cidade, mesmo quando chovia, ou quando o sol resolvia não aparecer, elas sempre estavam lá, esperando ser reconhecidas e querendo que a levassem consigo para a eternidade.
          Havia tanto para se aprender com as borboletas verdes, pois elas eram tão sábias... E só elas conheciam a fórmula secreta: a da felicidade. Elas sabiam que a vida era complicada, mas também sabiam que não vale à pena preocupar-se com coisas fúteis, assim como toda natureza, as borboletas azuis sabiam que a vida era muito curta e má se mal aproveitada. As coitadinhas queriam mostrar isso a todos, mas ninguém parava para ouvi-las, então as borboletas contaram à garota que quando estava perto do fim da vida, as pessoas sempre pediam conselhos a ela, mas elas respondiam que já não era possível, era tarde demais e não havia mais tempo, então de repente transformavam-se em borboletas pretas! E a garota sabia que as borboletas verdes nunca mentem, assim como ela.
          As borboletas eram tantas! Por que ninguém passava e pegava ao menos uma com as mãos e levava para seu mundo? Pois só assim poderiam ouvi-las cochichando em seus ouvidos e dizendo coisas significativas e reais o bastante para serem refletidas e realizadas. Só então sentiriam um sentimento melhor do que todos: o de liberdade! Liberdade no mundo é o que se busca, pensava a garota, mas ela não conseguia enxergar ou motivos que as pessoas tinham de abandonar seus mundos reais, pois todas as pessoas vivem em dois mundos: um é real e o outro é o falso. O mundo real é aquele em que se pode ser o que se é realmente, dançar as músicas preferidas, comer chocolate e rir, ser uma criança, de forma sutil. Já o mundo falso é aquele que por incrível que pareça, as pessoas passam mais tempo vivendo e contando dinheiro como se fossem preciosos segundos de sua existência. Mas não são. E o mais interessante é que o mundo real é muitas vezes confundido com o falso.
          A garota ouvira certa vez que o mundo real que ela conhecia era para ser escondido, pois tudo ali era de plástico, mas ela sempre acreditou que era o contrário e que o mundo falso é que era de plástico, por isso a prenderam ali no momento em que disse não concordar com a ideia dos dois mundos e afirmar com convicção que deveriam abandonar o mundo falso, pois se ele era falso, então não existia e não valeria à pena preocupar-se com ele.
          Disseram a ela que ela estava errada e que deveríamos fingir que estamos no mundo real enquanto estamos no de plástico, pois se não fizesse isso não teria como sobreviver no mundo onde as pessoas vivem, e nem ao menos em um lugar que ela pensava estar distante. Disseram a ela que esse lugar chamava-se sociedade e lá as pessoas viviam regidas por regras que se quebradas não deveriam ter suas falas admitidas e nem ao menos mencionadas.
Foi nesse momento que a garota resolveu sumir e colocou fogo em seu mundo de plástico, o destruiu. Assim, ela só poderia morar no mundo real e então ela começou a enxergar as borboletas coloridas uma cor em cada estação. Agora era a vez das verdes, pensava ela enquanto sorria olhando para o céu.
          Foi quando a colocaram atrás dessas grades nesse lugar que parecia o mundo falso e sempre que ela percebia que estava no mundo falso, corria para o real, o dela, onde tudo era do seu jeito nada dava errado, mas quando dava, ela simplesmente concertava qualquer falha, mas sempre que ela estava voltando para seu mundo dormia um sono branco e profundo, às vezes até voava.
Ela não sabia por que, mas sempre que ela ficava com as mãos nas grades brancas e mostrava aos outros sua coleção de borboletas gritavam:
-Louca! 

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