Virgínia
Não era bom estar ali, àquela hora,
naquele estado. Mas quem disse que a gente precisar estar desse ou daquele
jeito? Quem dita as regras? Virgínia levantou-se da poltrona e desligou a
televisão porque as notícias não lhe interessavam. A única coisa que a
interessava era sua vida. Pensamento egoísta demais, mas verdadeiro. Não era
isso que todos buscavam no fundo? Felicidade? Então. Só porque ela queria ser
feliz seria chamada de egocêntrica. Não parecia justo. Logo para ela, que saía
a rua do mesmo jeito que estava em casa, não usava batom nem mesmo em festas,
andava de calças largas e camiseta, ia ao supermercado de pijama, ficava uma
semana sem lavar o cabelo e o amarrava de qualquer jeito prendendo-o da maneira
mais prática possível. Vaidade é coisa de quem quer impressionar, pensava
Virgínia. E ela não queria impressionar ninguém, desde pequena pensava que
agradar os outros era renunciar a si mesmo, se colocar em segundo plano e isso
estava fora de seus objetivos. Apesar de sua aparência não ser a de uma pessoa
determinada, havia confiança em seus olhos, e são raros os olhos capazes de
transmitir essa característica. As pessoas eram muito frias, indiferentes
consigo mesmas. Se maltratavam a si mesmas, como poderiam ceder algo aos
outros? “Dulce hay que ser y darse a todos, / para vivir no hay otro modo/ de
ser dulces. Darse a las gentes/ como a la tierra las vertientes. / Y no temer. Y no pensar. / Dar para
volver a dar.”, como diz Pablo Neruda.
Os olhos pequenos de Virgínia, a
boca fina e o nariz grande não faziam dela uma mulher atraente assim, à
primeira vista. Para absorver a beleza dela eram necessários dias de
observação, de vigília. Era preciso conversar com ela para escutar sua voz
rouca ao mesmo tempo em que veria os movimentos de sua boca, relapsa e
despistada, para observar sua maneira de piscar os olhos repetidamente e ver
bem de perto os cotornos das rugas embaixo de seus olhos, como as curvas de um
mapa mostrando a hidrografia de uma região. Era preciso estar nu de senso
crítico e de senso comum para apreciar a forma como move seu corpo devagar como
se estivesse sempre com preguiça, para se deixar levar pela lentidão de seu
jeito de falar e desfocar-se de qualquer espécie de julgamento prévio. Só assim
era possível contemplar Virgínia a fundo e com o tempo descobrir suas
entrelinhas dispostas brutalmente disformes da opinião formada. Ela era tomada
de confusão, se podia ver seus distúrbios presentes na sua maneira violenta
fumar, na maneira como acendia o cigarro e o tragava com pressa, como se já
fosse sair correndo. O apagava com desdém, como se não precisasse de
absolutamente para sobreviver, como se sua independência vencesse tudo, como se
pudesse enfrentar suas responsabilidade sem a ajuda de ninguém, levantava-se
abruptamente e nunca estava satisfeita com sua posição, caminhava rápido, porém
tranquilamente, como se fosse inatingível e dona de si. Virgínia era paradoxal:
ora era letargia, ora era tempestade. Desvendá-la era completamente impossível,
suas complexidades eram desconhecidas até mesmo para ela mesma, que dirá para
quem ousasse arrancar o véu que a cobria, o véu que a deixava distante dos
olhares preconceituosos das pessoas ignorantes da sociedade, arriscando-se
assim, a sofrer com as malditas regras repressoras, que tornavam os indivíduos
seres impotentes, desconexos, sem personalidade, que buscavam cada vez no
próprio corpo provar algo aos outros, bradar: “sou assim, sou diferente, uso
esse tipo de roupa, dessa marca, você não, você é uma merda.” Seres que
buscavam adequar-se a coisas que depredavam seus ideais. A ideia de estudar
significava ir a escola, na escola as pessoas estragam suas personalidades, seus
dons são atingidos e massacrados e você trabalhará na empresa tal vestindo tal
roupa, recebendo tal salário, trabalhando até tarde, sua família te esperará e
seus filhos serão produtos de uma geração cada vez mais enfadonha e piores do
que você, porque é assim que funciona. Seus talentos e inclinações para arte
são dilacerados e o capitalismo te engole e te enreda em sua teia e te faz seu
robô, agindo de tal maneira pra arrecadar milhões e você morre, e tchau,
acabou. Não, Virgínia não gostava da ideia, era um modo de vida suicida, e ela
não aceitava isso. Só havia essa vida, só existia o agora.
Virgínia caminhou até a janela, devagar abriu apenas uma parte da cortina e avistou a cidade que nunca dorme com suas luzes refletindo no vidro salpicado de gotas de chuva. Ficou ali por longos minutos, escutando o barulho que vinha de dentro do seu prédio, passos nas escadas, gritos no vizinho, choro de criança, talheres tiritando, música alta, e escutou também os sons exteriores, as buzinas, os carros, as ambulâncias, e todas as vibrações a fizeram perceber que aquelas pessoas eram tão miseráveis quanto ela mesma e todos estavam buscando as mesmas coisas que ela, o único problema é que os meios de fazê-lo não eram comunitários e sim egoístas e canibais. Isso fazia com que nenhum deles dormisse em paz e com que nunca fossem capazes de descansar verdadeiramente e sentir a natureza, e a vida que foi preparada para todos nós, com florestas, praias e rios. Em vez disso, o cimento tomava conta de tudo, o capitalismo movia o mundo e a religião fazia todos sobreviverem. Aqueles que não se adequavam pulavam das janelas sem dizer adeus. Ela estava perto disso, mas não era assim tão conformada. Deveria haver um jeito de mudar essa realidade. Não dizem que o amor vence tudo? Onde estaria ele nessa noite fria cheia de mendigos, prostitutas, drogados, ricos, pobres, miseráveis sobreviventes dessa guerra que é viver na selva de pedra, nessa torre de babel que é o mundo moderno. Ela passou o dedo lentamente formando uma linha vertical no vidro embaçado pela umidade, virou-se e deitou na cama pequena de lençóis amarelados de sujeira, puxou o cobertor até a cabeça e adormeceu, torcendo para que seus sonhos fossem melhores do que suas realidades.
Virgínia caminhou até a janela, devagar abriu apenas uma parte da cortina e avistou a cidade que nunca dorme com suas luzes refletindo no vidro salpicado de gotas de chuva. Ficou ali por longos minutos, escutando o barulho que vinha de dentro do seu prédio, passos nas escadas, gritos no vizinho, choro de criança, talheres tiritando, música alta, e escutou também os sons exteriores, as buzinas, os carros, as ambulâncias, e todas as vibrações a fizeram perceber que aquelas pessoas eram tão miseráveis quanto ela mesma e todos estavam buscando as mesmas coisas que ela, o único problema é que os meios de fazê-lo não eram comunitários e sim egoístas e canibais. Isso fazia com que nenhum deles dormisse em paz e com que nunca fossem capazes de descansar verdadeiramente e sentir a natureza, e a vida que foi preparada para todos nós, com florestas, praias e rios. Em vez disso, o cimento tomava conta de tudo, o capitalismo movia o mundo e a religião fazia todos sobreviverem. Aqueles que não se adequavam pulavam das janelas sem dizer adeus. Ela estava perto disso, mas não era assim tão conformada. Deveria haver um jeito de mudar essa realidade. Não dizem que o amor vence tudo? Onde estaria ele nessa noite fria cheia de mendigos, prostitutas, drogados, ricos, pobres, miseráveis sobreviventes dessa guerra que é viver na selva de pedra, nessa torre de babel que é o mundo moderno. Ela passou o dedo lentamente formando uma linha vertical no vidro embaçado pela umidade, virou-se e deitou na cama pequena de lençóis amarelados de sujeira, puxou o cobertor até a cabeça e adormeceu, torcendo para que seus sonhos fossem melhores do que suas realidades.
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