Clandestinos e ciganos

Dormindo bem e comendo uma refeição decente todos os dias. Com arroz, feijão, saladinha. Enfim, casa de família é ouro. A mesma mania do outro rasta de passar na frente da igreja e fazer o sinal da cruz. Eu acordando imersa em sangue e sabendo das coisas que eu era capaz de fazer em troca de outras. E de dinheiro. A faca naquela bolsa e enrolando com papel de livro best-seller inútil meu base antes de dormir. Eu pude ver quantos filmes eu quis, porque havia uma TV à cabo. Eu estava bem com a brisa da janela e a fumaça o tempo inteiro. Ele saindo pra tomar banho e me deixando com o base inteiro. As crianças gritando, a música da rua, as casa amontoadas, e uma voz na minha cabeça me dizendo repetidamente "vai passar"...
Ele me levou pra um lugar onde havia um senzala e agora está tudo um lixo, em que eu pude ver toda a cidade, fumando um dentro do carro e eu até coloquei meus óculos para enxergar melhor, a luz do sol trazendo paz e meu corpo transcendendo a realidade de quem realmente tem uma rotina. Eu não pertencia a lugar algum. Eu não tinha nada.
Ponto de equilíbrio tocando e me dando sono. Como eu amo a África!

Ele voltou do nada.
E ele nunca vem de verdade, ele diz que a rua é o lugar dele.
Tenho fumado menos cigarros e me sentido muito melhor.
As mesmas piadas. Os mesmos cachorros dos outros bairros e as mesmas famílias. O mesmo refrigerante.
E eu nunca sendo boa o suficiente, porque me llaman puta.

Comentários

  1. Criaram essa imagem nas nossas mentes de que temos que pertencer a algum lugar, mas a verdade é que só temos que pertencer a nós mesmos, podemos viver do jeito que precisarmos, a maioria das pessoas não pode se dar ao luxo de não ser corrompida pelo desgaste do sistema. No fim estamos todos fodidos, mascarando a nós mesmos e fugindo da verdade.
    Tu é boa o suficiente, até melhor.

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