Ganhando anos e perdendo medos

Ele subiu até meu quarto e me pediu uma tesoura para cortar o doce. Colocou na minha boca. Amargor. Oito de fevereiro, todos os lugares viravam paisagens derretidas, espelhos em que eu entrava, as vozes deles se distorciam e eu só ouvia os risos do meu Rastinha, sincronizados com os meus. Então, foi como se conseguisse enfim compreender todos os motivos das atitudes das pessoas ao meu redor, mas continuasse não aprovando algumas e mesmo assim respeitando-as. Eu ainda não entendo a razão de toda a minha confusão. Eu amo quando meu rastinha faz com que meu corpo se descontrole, eu aumento o tom da minha voz, que geralmente quase não se ouve, e rio até que minhas bochechas doam. Ele me deixa ir para um lugar bem no fundo da minha mente. Nesses momentos, ele não se importa com a minha ausência, todo meu inconsciente se revela e releva. E acama balança, e o barulho do ventilador é dez vezes maior do que normalmente, tudo eco e vibra. O Buda que fica na sala ri para mim e eu sorrio de volta. Toda a maldade tem uma razão repleta de sensibilidade...
A cama balança, o quarto fica sufocantemente pequeno e irritante, cansei, quero dormir e não consigo, e eu não me importo o quanto as pessoas brigaram a noite e como amanhecemos na rua e bebemos tantas cervejas, e eu já não lembro da existência rasa e fétida da girafa vagabunda. Odeio quando ele ouve os mesmos raps que ela gosta, porque comigo ele não ouve nenhum. Puta. Odeio quando ele vem para perto de mim e diz que meu olho está castanho bem claro. Odeio quando eles ficam assim sob o sol, prefiro que fiquem tão negros que deem a impressão de estar perdendo-se em um quarto escuro. Vamos esquecer então, quantos orgasmos eu quiser. Então ela que continue caminhando bem desengonçada e sacudindo aqueles ossos que devem pesar para ela e queime as pupilas daqueles olhos transparentemente verdes e use dove naquele cabelo sem graça e que deus permita que ela nunca queime aquela pele sem sal porque ela não merece nada que tenha um tom a mais que o papel que é, e que ela pare de falar do gueto como se fosse a casa dela, ela vive sugada pelo concreto e pelo pó, da coca, das coisas... Essa puta realmente combina com farinha...
Durmo três horas, corro para a Chácara, cada rua uma fruta, uma flor, desço na última parada, eu já não lembrava o caminho, meu Pretinho já fazendo vinte anos, que coisa mais linda, que orgulho. Comi muito frango, coca, muito rap. Olhou nos meus olhos e foi como da primeira vez, "posso deitar no teu colo?", aquela pintinha de novo, todos os cachorros, ele disse que sou fofa. Descemos para o cemitério e perdemos completamente o respeito pelos mortos, meu joelhos doeram, mas era aniversário dele e eu tinha ido sem presente. Deitamos sobre os túmulos e olhamos as estrelas por largos minutos em que fumei um fininho. Ele me perguntou se as estrelas estavam assim porque estávamos juntos.
Me disseram que o álcool potencializa todo os efeitos, tanto de drogas quanto de sanidade.
Meu Rastinha me ensinando a dirigir, eu nem alcançava os pés no acelerador, acelerei demais, mas querido, nunca fui nenhuma dessas loucas que tu já conheceu, porque eu tenho noção de tudo até nas piores dores. Sempre dirigindo devagar, pois gosto dos movimentos lentos. Ele também comprou churrasco para o meu aniversário, mas não me acordou para a tatuagem que me deu de aniversário.
Um dia depois chegou meu Pretinho com um presente: o lenço vermelho. Amarrei no cabelo e o observei fazer um sexo oral incrível de aniversário, só para retribuir. Precisei relembrar o quanto sou incrível por cima, se a cama fez barulho eu nem me incomodei. Fui com ele na batalha de rap dos bombeiros. Muitos estavam lá, evitei olhar para eles. Fui fechar um e acabei cortando meu dedo com aquela faca, sagrei uns minutos e segui a rua para encontrar o rastinha. Ele me ama mais do que eu amo ele, isso é o que ele diz. Talvez realmente, essa cidade esteja com bafo de cachaça e fedendo a álcool. E talvez ele tenha tido razão quando disse que sempre é meu ex sucessivas vezes na vida. E eu perdi completamente o meu medo da chuva.


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