Um parágrafo pelo descaso



Olhei no espelho e vi que não havia o que fazer. Era eu mesma e ao mesmo tempo não era. Desgastando meu cérebro para poder entender porque ninguém supõe que estou com sede. As ruas esbarrando umas nas outras e eu sem querer li teu nome nos pixos. Ninguém entende nossa revolução e toda a busca e o questionamento que se escondem por trás dela. Eu nunca escolhi estar desse lado ou daquele, mas é tão difícil relutar contra o sistema e ao mesmo tempo estar automaticamente sendo engolido por ele. Ele me fez assim. Modificou meu corpo fora e dentro, derreteu meu cérebro e destroçou meu coração. Quis de verdade colocar todos os gêneros no lixo, pois pessoas são pessoas acima de conceitos distorcidos de verdade duvidosa. Não há certezas. Eu escolhi, mas ao mesmo tempo não quis. Caí aqui e eles já tinham (des)governado tudo. Me engasgo comparando o passado com o futuro e ligando os fatos, estupefata com o que ninguém vê e indignada com a ignorância que o poder dá e nos queima todos os dias: úteis e inúteis. O silêncio me dá textos de presente. Textos crus, porque muita festa não consegue mascarar as palavras. As palavras são sempre independentes, elas se jogam no mundo e ligam tudo, elas muitas vezes me ajudam a vomitar minhas impressões do mundo e tentar aos poucos me agregar ainda mais ao peso dele, suas misérias e seus fins de tarde no verão, e todas as alterações de consciência demonstram a minha busca indecisa e sem rumo. A solidão que escorre nas paredes sempre faz possível a poesia bruta que vem desde as alianças dos apaixonados até os ratos nos boeiros. Ninguém irá se salvar dos tiros, das roupas sujas, das geladeiras vazias, do desemprego, da cachaça barata, da televisão sensacionalista, da fome no meio da noite fria, da carteira vazia, das doenças virais, das palavras afiadas, de ouvir um despertador e ter de levantar e nem mesmo dos choros de bebês famintos. Eles pegam nossas crianças e as convertem em seres programados, eu não aguento a natureza morrendo e as panelas vazias, a fumaça destruindo meu pulmão e não há dor que eu não aguente. A não ser a dor das palavras cortantes. Espero um dia me fazer entender, no meio de toda a multidão que não tem acesso, que não tem poder, que não tem dinheiro, que não acredita, que quer comprar mais, que não conhece arte, que invoca deuses sem poder arcar com as consequências. Água limpa para beber, todas as plantas para cultivar, todos os documentos serão falsos, não quero novafala, não vou me adaptar. Toda a desigualdade irá nos quebrar em pedacinhos tão pequenos que aqueles que não compreendem as diferenças irão se confundir, mas os que sabem da verdade nunca se deixam iludir pela maioria beneficiada.  

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