Só para avisar que voltei

O frio me deprime. Já não escrevia uma única palavra, por medo de mim mesma. Muitas vezes me pego pensando que sou exatamente o que sempre quis ser e agora preciso encarar as consequências dessas escolhas.
Eu andava na rua devagar, observando a manhã, quando dei de cara com o sistema e ele me assaltou. Olhou-me bem nos olhos e pude ver a raiva em seu rosto negro e de meia-idade. Pediu minha bolsa, eu não quis dar, expliquei que estava indo trabalhar, não adiantou, o sistema arrancou e rasgou minha bolsa sem dó, me queimou com o cigarro que eu estava fumando e eu não me surpreendo nunca, eu sei lidar com as coisas que me fazem mal. O sistema que fez com que ele me roubasse é o mesmo que me fez indigente por ter perdido todos os meus documentos e agora ter que pagar passagem integral por um tempo. É o mesmo sistema que me fará encarar a burocracia e refazer tudo. Sei que ele não lerá sequer uma página do livro dos sonhos do Kerouac que ele levou, mas tudo se transformará em pedra e depois em fumaça e prazer inenarrável que eu desconheço, mas que deve existir, senão não funcionaria assim. Meu lenço vermelho que meu pretinho me deu valia mais que qualquer coisa que estivesse naquela bolsa, mas eu não tive escolha, eu tive azar, eu perdi um objeto de valor, mas existem coisas que ninguém poderá me roubar sobre eu e ele, e que ninguém poderá entender, pois é grande demais para ser entregue, não seria possível carregar.

Há cerca de dois meses não vejo meu pretinho, a última vez que o abracei longamente eu lembro ainda do cheiro que fiquei. O vi na parada de ônibus sentadinho, lindo, sorriu para mim e eu acenei para ele de dentro do carro. Doeu não poder abraçá-lo, mas gosto de saber que ele está bem e trabalhando, isso me orgulha.

É muito difícil lidar comigo mesma e minhas mudanças oscilantes por conta do meu transtorno de personalidade. Resolvi me aceitar assim, não vou tomar antidepressivos, nem prozac, nem porra nenhuma, sei bem que só a planta me acalma e ainda por cima é natural. Às vezes o vazio me toma e outras vezes a certeza da bondade inata transborda em mim e eu amo à todos, e depois odeio, mudo de ideia, aguenta quem pode, esse meu jeito confuso de me relacionar e a raiva que exprimo me faz secar e ser rude com quem mais amo, principalmente com meus pais. Fujo, me distraio, mas sei que não sou normal, sensível a qualquer suspiro ou olhar torto que possa surgir.

Uso meu tempo de trabalho de dezesseis horas de secretária na universidade para estudar, ler e escrever com foco. No mais, faço cafezinho, atendo estudantes idiotas, aturo professores esnobes, vendo meu tempo por um preço muito baixo e observo os ponteiros do relógio arrastarem-se. Além de é claro, passar horas em pé naqueles ônibus lotados e lentos diariamente. Que cidadão pode ser feliz vivendo assim? Mas já não quero sonhar muito, também quero o que é meu, quero sim tudo que me fizer bem se eu puder comprar. Queria poder viver da escrita, mas também penso que daria uma ótima professora de periferia, porque prefiro educar aluno pobre do que estúpidos alunos ricos. Eu fui uma, sei que é um porre.

Sobre a girafa, discuti com ela, porque ela pensa que vai comentar toda hora as coisas do meu pretinho, coitada, já até parou, três anos que conheço ele, vadia assim não chega desse jeito. Chamei de vagabunda. Não me importo que ela pense que sou criança, eu sei que não sou mesmo! Ela que fique pagando pau da plateia com aquela amiguinha gorda dela, porque eles ficam na minha cama e ela não chega aos pés do que eu sou capaz de fazer. Então não adianta, ela não sabe escrever, ela não aguenta nada, distorce minhas palavras, mente para o meu rastinha e acha que ele vai acreditar nela, acha que ainda deveria estar com ele, acha que sabe fazer melhor, acha que é da vila, mas é uma chinela patricinha que acha que é sem lei, mas até filho já tem, e ainda diz que tem direito de comentar o que quiser. Tem mesmo querida, mas eu tenho mais ainda,que ali eu escrevo o que quiser, tenho mérito, faço e não falo, facebook não é lugar de rampeira metida a louca, porque minha filha, tá se achando a louca porque não me conhece, quer brigar vem que teus dentes vão cair no chão com a minha ira indômita. Ninguém ganha de mim na agressão verbal, eu sou a mestre e a vadia acha que aguenta com a Chinaski. hahaha. Peguei leve, puta, fui educada contigo, porque devia estar nos meus minutos de não-tão-bom humor. E ainda é covarde, pois não me deu oportunidade de responder, putona é assim, só se engrandece virtualmente, quero ver olhar nos olhos, cara a cara para ver quem tem razão. Queria deixar claro que não é somente uma questão de ciúmes, mas sim de mérito. Mérito comprovado então... Antes fosse...

Infelizmente, meu rastinha ligou para ela, querendo me defender e eu não vi. Quando soube gritei muitíssimo alto, sei que ele se assustou, porque estava diante da crise mais aguda que há tinha visto eu ter, quebro tudo mesmo, não tenho controle. Ele ficou com olhos bem abertos e percebeu toda minha loucura. Não suportei nem mesmo a ideia de ele ter escutando a voz de piranha dela. Então o ignorei e ele insistiu milhões de vezes até me acalmar. Chorei. Disse à ele que tenho um transtorno e preciso que a todo momento alguém sensato me diga o que é certo fazer, e que não desista de mim e faça com que eu mude de ideia.  Às vezes, quase sempre, sou muito dura e realmente intensa. Não é nada fácil para mim ser um furacão.


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