O fabuloso destino de Chinaski

Corri do bairro, saí porta afora sem nenhuma palavra mencionar, permaneci com a mesma roupa por dois dias, caminhei muito. Encontrei minha mãe e soube que sempre continuaríamos tendo o mesmo tipo de relação, eu reclamando do mundo e falando sobre o quanto ele é injusto sem antes resolver os meus próprios problemas, que no momento o principal -porém jamais o único- era não ter um lugar para morar, e correndo para o colo dela quando tudo estava mais do que fodido. Repensei sobre mim mesma, se queria permanecer pelas ruas ou voltar para casa dos pais, quentinha, alimentada, plena. Plena de quê? Já não sabia mais de nada. Me arrependi por algum tempo, me senti uma pessoa muito ruim, uma cadela destruidora, mas não sou não.
Fui para a casa da minha anjinha e me refugiei em meio a todas as lágrimas, músicas, vários baseados e cigarros. Ela disse que tinha assistido O fabuloso destino de Amélie Poulain e que a vida dela era fodida igual a nossa. Estava sem fome, mas fomos ao mercado. Meu pretinho apareceu em meio as prateleiras, de uniforme, e eu não acreditei que as coisas pudessem ser assim, que minha vida fosse tão pateticamente louca, supus que não aguentaria todo o caos, mas fui fabricada para ele e por ele. Esperei ele sair do trabalho e fomos até a Chácara. Não sei como pude deixar que ele se sentisse culpado, como se tivesse se atravessado em meu relacionamento com o rastinha, e não sei como pude deixá-lo limpar minhas lágrimas que já não paravam de escorrer. Pensei no quanto ele era bom, o quanto de ouro existia dentro dele, toda a riqueza do universo, eu juro que não consigo ver espécie alguma de maldade em seus olhos serenos e sóbrios.
A mãe dele esperando no portão, dando chá com mel para que a tosse parasse, dando beijo de boa noite, tudo como um sonho, a lua cheia bem no alto em meio a névoa, a rua fria despertando o nosso lado mais forte, ninguém pode dizer que de alguma maneira eu tive sorte. Tomamos banho quentinho, comemos, fizemos amor, como da primeira vez, para sempre meu pretinho, a esperança sempre reacende nossos reencontros, desencontros, a vida nos leva de um lado a outro sem nenhum aviso prévio. Dormi com um gatinho preto muito fofinho, eu amo gatos e há tempos não dormia com um.
O dia escuro, seis da manhã, fui trabalhar e meu corpo não parecia meu, eu não em sentia pertencendo a lugar algum, queria sumir, meu pé doía e me desencontrei da minha anjinha, peguei as chaves da casa dela, reencontrei minha mãe e procurei sem sucesso um lugar para ficar.

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