Dias quentes e curtos

Andei procurando um lugar onde eu pudesse escrever em paz e encontrar paciência comigo mesma. Muitas vezes resolvi não guardar mais rancores, foi como seu eu tivesse colocado minhas agruras escondidas em uma caixa e largado em algum canto escuro do meu quarto.
Minha máquina de escrever continua escondida, não tenho espaço para deixa-la à mostra. Fumo um l.a. de cereja enquanto observo o anoitecer de um domingo quente em que acordei com o estômago embrulhado com soluço e ânsia de vômito por beber muitos tipos de cerveja na noite anterior. Me sinto tranquila sem tomar aqueles remédio horríveis. Queria trocar alguns livros meus em um sebo.
Estou lendo casa de alvenaria, da Carolina Maria de Jesus, e amando minha escritora preferida e suas sábias palavras vou aprendendo e enchendo os olhos de lágrimas. Ando estudando bastante e arrumando os dreads do rastinha. Nada é como costumava ser, muita coisa fiz errado, mas estou tentando perdoar a mim mesma e ser melhor, ainda que devagar e ainda que de meu jeito errado e irritado, eu quase não aguento, e então me recordo que estou pegando pesado com todos. Pego leve, sorrio mais espaçado e sinto os perfumes e sabores com suavidade, aprendendo com o tempo e com a literatura.
Há dias em que quero morrer. Dias que passo três turnos inteiros sem comer na universidade porque o restaurante universitário está em greve e eu tenho aula de filosofia da linguagem. Como é difícil estudar Letras. É realmente necessário amar muito e respeitar toda a sabedoria dentro dela, ainda que eu saiba muito pouco e talvez nunca consiga saber muito.
Ontem uma menina loirinha de dreads lindos me encontrou na parada e perguntou meu nome. Elogiou meus dreads e disse que podíamos fazer manutenção uma na outra. Me pediu meu telefone e veio para perto de mim no ônibus. Disse que me via sempre. Contou minhas tattoos e falou de literatura e da planta. Disse que ligaria para ela. Tentou um beijo quando eu estava no portão do meu prédio. Minha perna tremeu como a de uma adolescente apaixonada, como a vida é uma coisa engraçada.

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