Não quero ser teleguiada

Nos últimos dias, tenho estudado muito a nega Carolina, sinto uma identificação com essa mulher tão instigante, pelo seu fascínio pelos livros, pela sua grafomania, pela sua dificuldade de encarar a vida e principalmente pela sua vontade de lutar contra o poder, mas também fazer parte dele. Vidas atabalhoadas, não é, estrela Carolina?
Despedi-me de meu pai e de minha mãe com lágrimas nos olhos que se transformaram em soluços longos e solitários, aos quais até mesmo o Rastinha não resistiu e acabou deixando cair uma lágrima também. Queria ir para Curitiba com eles, conhecer pessoas diferentes dispostas a ouvir meu discurso de revolta, uma universidade nova que quisesse talvez me guiar. Mas não pude. Precisei ficar, precisei enaltecer minhas raízes, por que eu haveria de mudar-me se meu lugar eu quem escolhi e acabei construindo a mim mesma, meus objetivos não tão claros se formam por si só, atrás de uma cortina, não consigo vê-los direito, mas sei que se trata de mudanças. Agora que aprendi a ser quem sou é realmente difícil mudar, em meio aos meus projetos malucos.
Me senti chateada quando vieram falar daquela vagabunda loira pra mim, xinguei a todos, levantei da mesa, gritei e saí do bar. Papai pagando a faculdade particular da filhinha que mal sabe quem é, querendo que eu leia livros??? Por favor, querida, compra uns para mim então, preciso de inúmeros.
Um menino me ligou para fazer uma entrevista sobre eu ter sido a ganhadora do prêmio construindo a igualdade de gênero. A ONU Mulheres se orgulha de mim, assim como o Rastinha está me orgulhando ao ler os clássicos marginais, sentiu a magia da literatura e não quer mais parar, sentimentos bons foram plantados neles quando as palavras começaram a fluir em sua mente.
Infelizmente, percebi que ele estava se tornando igual ao outro branquelo, que preferia ver pornografia a me comer. Senti raiva, já não bastava todas as submissões machistas na hora do sexo como ficar de costas e levar tapa na cara, agora isso? Me deixar dias sem é como me deixar faminta, logo eu, a xoxota sugadora? Sem chance. Faço no mínimo três vezes ao dia. Além de grafomaníaca, também sou ninfomaníaca. Foda-se.
Naquela tarde ele preferiu ir no banco da frente do carro com ela, mas se fossem aquelas amiguinhas ele iria atrás com certeza, e ainda tirava foto. Deixei que a aliança escorregasse calmamente do meu dedo e enfim afundasse no rio, se libertasse de mim para eternizar em seu próprio simbolismo brilhante.
Todas as fotos que ainda existem daquela girafa. Apaguei todas as fotos em que eu apareço. Minha imagem não é necessária em meio ao lixo.

"O livro... me fascina. Eu fui criada no mundo. Sem orientação materna. Mas os livros guiou os meus pensamentos. Evitando os abismos que encontramos na vida. Bendita as horas que passei lendo. Cheguei a conclusão que é o pobre quem deve ler. 
Porque o livro, é a bussola que ha de orientar o homem no porvir (...)"
- Carolina Maria de Jesus, em "Meu estranho diário". São Paulo: Xamã, 1996, p. 167.

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