Turistas de olhos calmos

Iniciamos a viagem rumo ao litoral, o vento entrava pelas janelas do carro branco e eu ia no banco da frente fechando vários para fumarmos. Chegamos em Porto Alegre, adeus freeway, paramos, tec tec tec, fundiu o motor do carro.
Descemos, nós quatro, e aguardamos um táxi que nos tirasse da estrada, levasse embora. Tomamos um ônibus e seguimos até outra cidade, de lá, para outra, corremos muito, o calor logo diminuiu quando chegamos a Tramandaí. Siri, camarão, cervejas, perfeito. Estávamos feitos ciganos. Adquiri intimidade com rodoviárias. Voltamos, tomamos outro ônibus, enfim chegamos em Floripa. Por que tanta demora, por que tuas luzes não me iludem, tua magia não me corrompe, cidade de praias lindas?
Vários branquelos chatos, sotaque lembrando o português de Portugal, rudeza em tratar os outros e invisibilidade minha, a não ser quando atravesso a rua na faixa de segurança e me sinto segura ao menos, pois todos param sem que eu precise olhar para o lado. Também sou invisível quando fumo vários em todos os lugares. Ninguém me recrimina.
Quantos mil gastei? Não sei... Fiquei abaixo de zero, sem direito a lanche nem passagem de ônibus para trabalhar novamente.
Rastinha chama aqueles caras estranhos para comprar fumo, andamos calmamente por São José, mesmo com ele nos dizendo que é muito perigoso. Perigosos somos nós, respondi. A noite quente nos fazia herois de nós mesmos, como se estivéssemos nos despedindo de nossos antigos eus, por causa da fantasia que viajar causa em nossos corações selvagens e mentes pouco sensatas.
Exploramos muitas praias e deixamos que as ondas lavassem nossos dreads, que os sorrisos despontassem um pouquinho de esperança na vida, que o sal purificasse nosso naturalismo danificado pelo sistema de vida chata e regrada. Até mesmo o salva-vidas me buscou no fundo da praia brava, me chamou de gata, me enfureci, medir as palavras é preciso quando estou no mar. Eu nem estava me afogando, nado em mares diversos há mais de dez anos e inclusive já conhecia essa tua cidade. A única coisa que estava me afogando naquele momento eram os meus pensamentos. A água fria me engolindo, o mar me devorava e me levava para sua imensidão, Iemanjá talvez me levasse ao fundo para viver com sereias naquele mar de ondas traiçoeiras e belas.
Nadei contra a corrente, mas ele não me salvou. Salvou apenas ela. Nunca me importei mesmo.
Amo a noite com as luzes de Itapema me fazendo refletir, o mar me engolindo com suas águas calmas e quentes, me agarrando, o rastinha querendo tudo naquela água, a maneira como conduzia meu corpo e o invadia, fazendo-me corar por haver muitas pessoas ao redor. Tudo aqui é culto a Romero Britto, mas tudo aqui se resume em praias. Poluídas. Demais.
Fomos a lugares lindos, lindas trilhas, pessoas ricas desfrutando de suas mansões à beira mar, de seus carrões importados, de seus barcos, de seus lindos filhos, argentinos enchendo o saco querendo isso, querendo aquilo, aprendam a falar minha língua para visitar meu país, a de vocês já sei, mas nem respondo em espanhol, de raiva.
O reggae tocado por aquele hippies me agradou, mas não tentem amizade, sou adepta a minha mobilidade repentina há anos. 
Peguei minhas trouxas e fui embora de lá com os bolsos vazios em uma viagem longa e chata de ônibus em que não dormi porque era desconfortável, acabei lendo Cidade de Deus.

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