Sobrevida

Deixei essas linhas escritas apenas para que minha leitora voraz pudesse lê-las. Meu coração sangra irresponsavelmente e com certeza algo muito além da erva me move para a escrita, o desespero e a dor que fazem com que eu escreva. Jamais como uma máquina, como aprendi em ficção literária na universidade, nunca como uma engrenagem cheia de técnicas para prender o leitor. Minha vida me basta para afugentar amores e leitores, porque eles sabem que yo no valgo la pena. Não há ficção em minhas histórias nada rasas, porque meus mergulhos são fundos e eu nunca emerjo. Você me deixa sem chão, pretinho. Me chamas pra cama, pra rua, me despes, me vestes, não cansas, mas depois me jogas na sarjeta, me atiras no lixo, me deixas na lama. Eu, logo eu, que sempre acreditei em ti, todos os meus pedaços durante anos tiveram magnetismo por ti. Mas de que adianta te amar durante anos e ouvir que tu queres esquecer minha existência. Eu sei que não tenho valor, eu perdi tudo que eu tinha, até as lágrimas mais nobres e orgulhosamente guardadas estão caindo dos meus olhos. Terei meus sonhos sempre enfeitados por ti, todas as lembranças em uma caixa de memória, em um lugar calmo e cheio de flores, e túmulos e pássaros. Queria morrer louca. Se eu pudesse voltar àquela madrugada em que te deixei dormindo sozinho naquele apartamento e saí de moto com ele, eu juro que voltaria e faria tudo diferente. Eu era tão diferente, eu te abandonei tantas vezes, eu não mereço amor nenhum. Meu amigo mais lindo, artista nato da rua. Eu não quero te esquecer jamais. Espero te encontrar com facilidade, como sempre o acaso nos uniu, meu amor é sincero e anda sobre uma corda-bamba. Sorte a tua que meu corpo não te infectou com meus vírus incuráveis. Queria ter ficado com um pouco da tua inocência, teu amor puro e verdadeiro, teu livre amor de aquariano. Que eu desperdicei, invalidei, enquanto todas as meninas da cidade querem fazer sexo contigo, nenhuma rima tua vale mais que eu e este meu corpo de Madalena e assim falou Zaratustra: há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre, também, alguma razão na loucura.
Tente encontrar meu endereço, meu amor, na vida longa e no mundo pequeno, eles mataram nosso amor puro, todo o mercado pornográfico e toda mídia itinerante e todos aqueles capitalistas filhos da puta mataram nossa voz e nossos orgasmos. Não sou um bom exemplo para ti, nem tua mãe me aprovaria. Ela viu meus olhos de relance e soube que eu sou uma puta imunda. Numa noite regada de vinho, no inverno passado, você me disse que não haveria exclusividade, mas nunca me disse que me chutaria assim.

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