O dever da Arte

O clima da cidade é tenso. Policiais nas ruas escoltando os escassos ônibus. A greve de transportes não termina e as coisas não fluem naturalmente, pois a ameaça de violência persiste, nada dissimulada. O dinheiro é destrutivo. Sirenes, reflexos do caos crônico urbano.
Nem Anaïs Nin poderia escrever contos quentes sobre nós, pois se queimaria.
Eu dependo de você como a Tristessa depende de heroína, é uma drogadição pesada e não fictícia. É uma desordem total. Aprender os tempos verbais do subjuntivo é simples, só não aguento calcular os dias para voltar à minha terra, ao meu lar, ao meu Rio Grande do Sul. Céu, sol, sul, terra e cor...
A Plaza de la Tejas esteve cheia de curiosos com sede de arte, do imprevisível, de uma ação fascinante, em que o corpo de um homem se suspendia por uma corda em uma ponte, não se sabia que ele era espanhol, não se sabia que as palavras escritas no corpo dele eram tatuagens, todos aqueles nomes e noites, planos insensatos que não podiam ser impedidos pela polícia que não deixava pendurar nada, mas não sabia que o que estava por debaixo daquele pano era alguém pulsante e vivo. Nenhum prédio o engoliu. A América Latina é o melhor lugar do mundo para se sonhar. O dever da arte é causa reações adversas.

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