Em suspenso
Gosto da suspensão, ela me dá garantias. Suspendida, estou. A verdade é que ninguém mais tem tempo de ler minhas linhas, porque não são linhas atrativas como a cocaína. Sou adepta da confusão e também do acaso, que está aparado por um destino com bordas que podem ser atravessadas. Mas nem tanto. Em algum lugar há limites. Como aprendi com a maldade dos outros! Talvez todos eles estivessem tentando me proteger de mim mesma e não de todos os fatos. Talvez soubessem quem sou há muito tempo e não soubessem mais como escapar do medo queme atravessa. Naquela espécie de constelação familiar que tive em aula com uma professora despojada e despida de todos os preconceitos, numa tarde quente do ano passado, me sussurraram ao ouvido que podiam sentir minha agonia. A sala estava escura, o ar estava frio, nossos olhos estavam fechados, onde estava a minha alma? Estava suspensa, estava diluída, só restava a ciência sobre todo o sentir, para cumprir sonhos, precisamos deixar a alma voar longe e escapar da vista do corpo. A minha verdade é outra, eu não cometo crimes. A moral que excedo não é tão mau assim como a masculina que esmaga e mata. Houve outra aula dessas quando um padre católico nos benzeu. Eu ri. Não pude segurar. Ficarei suspensa por isso? A vida me dá suspensão com cada decisão errada que tomo. Essa torção moebiana aconteceu, não foi um simples gatilho (apertado por ele que pediu a ela que não a abandonasse). Algo em mim se torceu, me rearranjei, mas continuo a mesma, mesmo quando meu amparo simbólico se esvaiu e topei com um real que eu já conhecia, do qual é impossível dizer, o qual é inenarrável para quem não estava conosco naquela esquina que não nos esquece, inscritos na calçada até que o mundo se acabe. Você me deslocou por dentro e por fora. Você, no fundo, não acredita em mim. Quer fingir que sim. Quer pagar para ver. Assim, evito cair diretamente no buraco que cavei para mim mesma (com ajuda) e desvio o caminho do fim, deixo em suspenso, pelo menos por alguns dias de sol. Você acha que a fumaça pode nos esconder em um mundo só nosso?
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