Vespeiro
Minha mente vive longe da tranquilidade desde que eu morri por ser substituída. Eu e você não temos um contrato, mas temos uma passagem ao futuro. Espero que não a perdamos, porque não haverá devolução do valor investido por tantos meses. Vamos conseguir esperar tanto ou tudo vai esfriar como meu coração? Não vou mentir, a verdade é que meu coração está em chamas e meu corpo frio, como se eu estivesse morta. Enquanto você está bem longe, meu vizinho me chama para vê-lo, mas quando eu confirmo, ele faz o de sempre: foge como já era previsto. Quando eu não posso, na urgência dele, me joga um balde de gelo. Segue sendo quem joga toda a responsabilidade para mim. Você não é tudo isso. Não vai ser quando ele quiser, sempre orgulhoso e mantendo a pose, isso é porque não lembra bem de mim no passado. Pode apostar que sou muito melhor, mas você estar bem melhor como diz, disso eu duvido, porque não me deu prova alguma de que cresceu apesar de dizer que está mais experiente, não sei quem o ensinou. O que eu sei é que é fissurado em cocaína, será fofoca? Todos esses problemas não me levam a lugar nenhum, porque eu sim me levo muito alto, não sei se algum de vocês poderá alcançar essa subida tão íngreme. Daqui do alto onde estou, tenho uma vista incrível e poderosa. Acho que não vão ter fôlego de chegar tão longe assim. Tenho medo de me decepcionar com o tamanho do microfone, se toda a cidade sabe que canto bem melhor que ele (quando me ajoelho). Posso ser migajera, mas nunca feia ou sem sal. Ninguém mais quer chamá-lo para cantar, porque não escreve letras novas há pelo menos cinco anos. Isso que ela fez com você, isso que percebi quando você aumenta a cadência das palavras, eu já sabia. Já aconteceu comigo. Seu melhor amigo, ele sempre quis ser como você e roubar tudo que você tem, depois de eu e você, ele também me quis (e conseguiu, sabia?). Não me surpreende, você não enxerga por causa do dinheiro dela de empresária? Te confidencia sobre a vida dela, para tentar conseguir um pouquinho de confiança também. Você foi meu primeiro antes de todos os outros. Pena que você se esconde, estando a um quilômetro da minha casa. Na madrugada, todos os mais carentes estão em linha, ultra-conectados esperando um sinal, uma foto desnuda, um afago para os imensos egos. Façam o exercício de se olhar fixamente no espelho por cinco minutos e me digam se realmente são tudo isso. Quando eu faço isso, percebo que sou uma deusa, deve ser difícil ter algo tão fino no meio das pernas. Alguns já estão na fila de espera, não desistiram totalmente, mas percebem minha enrolação. Estou esperando um sinal verdadeiro, um que me leve para um quarto que não seja o meu, porque essa chance eu já dei muitas vezes, sempre tenho que prover, até quem tem mulher e filho quer que eu, logo eu encontre um lugar. Já estou cansada e abro a janela do meu quarto nesta linda manhã melancólica, onde há um enorme vespeiro de marimbondo crescendo, porque eu não tenho medo algum da natureza, indômita, selvagem, incontível. Sem falar que minhas férias estão acabando e ainda não assinei meu contrato na universidade. Confesso que quando acordei hoje, meus olhos ficaram como uma torneira bem aberta, não conseguia ver a luz do dia, porque inundou minha vista de água salgada, essa água que vem do mar, entra na minha alma, numa química perfeita passa ao meu corpo e desagua através dos meus olhos negros e dissimulados. Se pudessem ler meu diário, se conseguissem decifrar a letra de meus textos com datas e títulos, excedendo as margens, se assustariam com tantas verdades dolorosas. Eles também chorariam, mas prefiro poupar a todos para poder ter uma chance com eles depois, por mínima que seja, porque inesquecível eu já sou, não como eles passageiros. Claro que há aquele que fica, o favorito, o único, o eterno. Tenho todos os vídeos dele na pasta "espetacular". São imperdíveis e são o que me consola da falta de responsabilidade dos outros. Sem contar que dormem muitas horas a mais, não são como eu que vive ao limite, na borda, entre a neurose e a psicose. No fundo, é como eu sempre disse: sou igual a eles. Não sei porque reclamo. Continuam ali, totalmente disponíveis. Embora eu sinta essa urgência, sei que ela é falsa, é apenas um sintoma da minha melhor doença, que não é de pele. É a minha forma de vida, imparável, cruzando a linha e voltando. Nem a vida dura tanto tempo, com certeza essa dor passa. Ela diminui, mas segue ali, escondida debaixo de cada sorriso meu. Afundada na tranquilidade das palavras deles. Porque eu vivo como se estivesse louca de bala. Porque eu sei que pode não haver amanhã nenhum. Não sei porque sinto dor, eu deixei você cutucar essa ferida que estava tão cicatrizada. Eu me perdi: não sei quem é você ou ele, peço desculpas aos leitores e leitoras, vocês podem me contatar para mais informações. Os detalhes podem ser sórdidos, vocês podem estabelecer o limite que acham que aguentam, já que é impossível tudo dizer. Quero falar das meninas, sim. Mas agora, não consigo escrever. Amo as garotas, elas tem toda a sensibilidade à flor da pele. E eu, com minha pele dilacerada, quase nunca dou conta do que o dinheiro não pode comprar. Quase nunca tenho capacidade de escutá-las, porque vivo na urgência de tocá-los e impressioná-los ao extremo, para depois virar um lixo, do tipo que se pode descartar, mas é reciclável, por isso, preferem guardar numa caixa ou numa gaveta, como um brinquedo sexual que quando está sem pilha é jogado no chão e pisoteado. Ainda que muito me assegurem que estou exagerando, eu me sinto flutuando pelas ruas, sempre esperando pelo pior de cada um. Vocês são completamente fascinados pelo frescor da juventude perdida de vocês que eu trago de volta quando abro as pernas.
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