Distância calculada
Deixo sua casa, abandonando o Chicano como um bebê suplicante que não quer ir à escola, sozinha no portão pela primeira vez. Eu tenho compromissos nos domingos, preciso ir até a rodoviária, eu ganho muito por tudo que faço, até quando se trata de um simples favor. Ele está ácido, ainda não aprendeu o que significa algo vindo de mim, que com tudo me amedronto, ainda que siga completamente corajosa. Todos acreditam que minha mente está sempre voando, mas não se preocupem, por mais erva ou álcool que eu consuma, permaneço tendo algum material para exportar palavras sem metáfora. Aposto tudo em uma literatura estimada como barata, porém é um literatura que tem muito valor. Os adjetivos nem sempre bastam: valiosas. Às vezes, os verbos precisam aparecem para que sejam o fazer em ação. Quando pensam em mim, acham que estamos pelas ruas. Mas raramente saímos do quarto dele. Quando estamos por lá, nos sentimos seguros. Mas esse tempo todo tem sido inflamável. O Rasta, que já recebeu cartas minhas, me passa uma que eu guardo e depois para quando esteja a sós com meus pensamentos e canções, porque o Chicano sempre tem. me diz que ele tem restrição com a antiga namorada, mas não sei qual. Deve ter alguma esperança sobre mim e crê que eu fiz de propósito. Eu estou em outro lugar aonde ele não pertence. Num circuito de arte, ele deve ter assistido ao lançamento de um vídeo do Chicano em um documentário sobre o rap gaúcho, gravado há dois anos atrás. Enquanto as latas que eu comprei se enfileiram, ele pensa que está me mostrando algo sobre humildade, mas minha família é humilde como muitas. Noto que ele mesmo não consegue sair dessa, porque eu faço bastante mal a ele também. Quase nunca é minha culpa, ele é quem me chama, se não estou dormindo com ele, com certeza vai me cobrar algumas palavras quando beba. Sinto que cansamos da companhia dos outros e bebemos um do outro até estarmos intimamente envoltos em muito tabaco e algum amor de palavras feitas que nós mesmo jogamos em uma performance de quem brinca com as palavras com tensão e sede. Escrevo uma dedicatória terna a ele, sem pretensões, quase igual a uma que faria com nossa antiga amizade. Sinto que tudo muda, depois que ele me mostra vários documentários sobre Centro de Confinamiento del Terrorismo para que eu repare no estilo de tatuagens, não só no sistema de segurança máxima de San Salvador. Percebo que nunca teremos algo sério, porque tem medo que eu mude de cidade e porque estamos ocupados demais sendo grandes e exclusivos amigos. Na casa dele, não temos porta. Mas carrega arma branca nos dois lugares. Eu tenho pavor de homens armados e bêbados. Na minha, ele tranca a porta. Gosto de estar sozinha como nunca, me sinto à vontade em casa como há anos não sentia. Um poema meu está uma coletânea nova de escritoras mulheres. Após a leitura, todos sabem que meu coração está quebrado.
Comentários
Postar um comentário
Argumente.