Fria vingança

Não querem nos ver juntos, mas não conseguimos nos separar, somos como ímãs que se atraem com força física e química. O Rasta me julga, diz que o Chicano é violento. Fica no não dito que eu sou igual a ele no amor, não suportamos qualquer ameaça de abandono. Depois que as redes nos registraram juntos, as meninas amaram e os meninos choraram. Eu o trouxe até a norte, com todas as advertências. Na ameaça de se encontrarem, o Rasta desistiu, mas é porque pensa que estar com ele foi algo que fiz de propósito, não tem noção de que isso é um reencontro de almas quebradas e perdidas. Me diz que tem pena dos meus pais, quando o conheçam. Mas quando foi a vez dele, não sentiu o mesmo. O Chicano me diz, entre cervejas e baseados, que ele conheceu primeiro minha tatuagem do Aerosmith em região estratégica do corpo, lá no início de 2010. Com todos os apelidos que me dá, de dia fica doce como açúcar e, quando o álcool inflama, fica com medo de me perder e não dorme, me vigia sem cessar, me perguntando se o amo. Por sorte, os dias de liberdade de seu primo acabou e ele voltou à prisão, assim ficamos mais leves, sem que nos peçam nada ou reclamem por traições de lindas mulheres que são livres, isso sempre os surpreende. Espero que nos deixem em paz e amo sua forma de não ligar para nada, reclamando de tudo. O deixei com raiva quando conheceu minha casa, porque o coloquei nessa situação. Mas eu também fui jogada nela. Depois, pensa melhor e se acalma com minhas desculpas e promessas de amor, mas ainda está apreensivo, só eu posso converter seu receio em coragem. Enquanto isso, subo de nível e assino mais contratos, a mil nos negócios, um sucesso profissional. Gosto dele domesticado, na segurança de saber onde está e com quem fala. Na certeza de que me ama, sei que isso não é pedir muito. É justamente isso que me atrai, não só seus olhos obscuros e vagabundos. É disso que precisamos, da obsessão desmedida de um coração que é cúmplice do cotidiano, amalgamado no meu corpo sem restrições, da forma que causa inveja em quem não sabe amar com toda intensidade da vida e da morte. Ele me pede uma faca para se defender, até que lhe ofereço uma, mas explico que é desnecessário e que o defendo a todo custo. Garotos não precisam brigar pelo ego, não há como me esquecer. Me pede que fuja se alguma coisa acontecer, sempre fascinado para que lhe violentem. Quando eu estava ausente, seu irmão o agrediu, mas ele só se defendeu. Sinto que incomodamos em todo lugar que frequentamos. É como se não houvesse espaço para nós dois em lugar algum. Ele espera que eu tenha um filho com ele, mas estou no auge dos meus 30 anos com um êxito que lhe é inalcançável, na medida em que ele não compõe mais. Entre performances medievais, me diz que é triste estar sozinho. Sinto que ele não consegue sair do vazio que o luto materno traz. Sinto que ele se refugia em mim e eu nele, nessas noites frias que no dia a dia são comuns, só vemos o que passa na televisão. O Rasta fala do que não sabe, mas passo vontade de confronto verbal, diz que ele não tem nada e é um vagabundo, mas disso o próprio Chicano já me havia advertido, vi com meus próprios olhos e senti com minha própria pele, esse é seu modo de vida e quem ele sempre foi. Quem disse que eu preciso estar com alguém que tem algo material? Se a morte é certa, a vida me brinda com mais dígitos e eu não deixo de dizer que não cometo crime algum para ter dinheiro. Esse garoto se derrete nos meus braços como nunca imaginei que pudesse se entregar. Dormindo mais que a bela adormecida, ele me busca e, quando me encontra, se resguarda do mundo. Às vezes, pensamentos ruins rondam minha mente, fico querendo desaparecer. Mas vejo que o mundo segue normalmente, que nós também seguiremos, não há como nos restringir. Chocamos a sociedade com amor, sem fazer mal a ninguém, envoltos em fumaça, alimentando uma paixão furiosa e perigosa. Quando eles pensam melhor, me dão razão, ainda que eu quase nunca esteja certa, comovo com minha fragilidade, escondida na minha beleza magnética, afogando-os no meu olhar limítrofe que suplica por mais.

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