Calar para não sofrer

     As palavras ferem, cortam como faca; arrancam pedaços ás vezes... Por isso vou me calar, só para minha boca descansar e voltar com toda força, livre de estupidez e superficialidade, livre de fofoca e maldade. Só não abandono os palavrões, porque esses fazem parte de mim.
     Eu falhei, eles falaram também. Mas eu falhei mais, eu acho. Na verdade não tenho certeza se falhei. Pode ser que eu tenha falhado em alguns pontos, mas pontos inocentes. Quem disse que eles também não falharam em pontos inocentes? Eles também sofrem, também são confusos, são apenas crianças grandes. E como em O Pequeno Príncipe, é mais complicado ser adulto que criança, porque os adultos não tem essa pureza, essa inocência; ou tem... Essa é a questão. A minha juventude é livre, mas como todas as juventudes, tem sede de algo que eu não conheço. Esse desconhecido me sufoca e me confunde, mas eles também estão confusos com a minha confusão e com a confusão deles. É difícil para todo mundo, e nunca vamos superar esse amontoado de incertezas, de eu-não-sei-o-quê-fazer. Adaptar-se é complicado, porém obrigatório. Não faz sentido desistir, é necessário lutar, brigar, discutir, chorar, sorrir, abraçar, beijar, amar, mas é essencial calar; calar para não ferir, para não trazer a tona os erros e entrar numa baixa discussão. Fingir cegueira também é essencial. Ah! Quantas vezes tive que fazê-lo! Porque eles também erraram, mas ninguém errou mais que o outro, ninguém merece nada além de silêncio. Um silêncio pesado, vazio, melhor que os comentários estúpidos que ferem.
     A partir de hoje vou calar. Eu amo os dois, por isso permanecerei o mais calada possível. Nem mesmo comentários sobre o tempo farei. Não é rebeldia nem nada, é apenas amor, puro amor, na sua mais sensível forma, sem machucar, sem dizer nada. O silêncio dói muito, o silêncio afronta. Mas que se há de fazer se as palavras doem ainda mais ainda... As palavras sim, cortam, fazem sangrar. Mas eu preciso de um tempo só meu, um tempo para pensar, para definir um destino, comprar a passagem, avistar os sonhos, desamarrar de mim o passado ruim, e grudar bem lá no fundo da alma o passado bom. Vou deixar a rua me levar, como na canção. Há tantas coisas que eu preciso ver, sentir! E eu vou, agora mesmo. Andar sem rumo é também, sofrer. É deixar para depois. Preciso traçar alguma rota, com atalhos ou não, preciso chegar a algum lugar. Até logo, vou ser livre, mesmo amarrada. Meu amigo Eduardo sempre diz que a minha liberdade me aprisiona, e talvez seja mesmo verdade...


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