A fera adormecida


              Já não faz mais parte de mim esse vazio incógnito e solitário que vinha me corrompendo há tempos. Vejo a saída de uma caverna, por onde a luz dá os primeiros sinais, e apesar de eu saber que ainda há escuridão pela frente e que eu devo enfrentar a minha relutância em comprar uma vela para iluminar o caminho, sinto como se estivesse no brinquedo de um parque de diversões qualquer onde existem vários fantasmas que sabemos que não são reais, mas mesmo assim nos assustamos.
                Espero recordar do passado como me lembro dos sonhos bons que tive. Meu despertar está próximo, e eu temo pelo desconhecido, mas é somente a partir dele que posso continuar vivendo como se vive há anos: perturbado e insatisfeito com a própria insatisfação humana. É uma questão de selvageria, buscamos sempre mudar o que não está bom.
                Eu vinha nadando contra corrente há anos, buscando me salvar, mas não há maneira de concretizar algo com essa minha falta de tato com a realidade, porque quase sempre eu realmente não sei o que é melhor para mim, e então erro brutalmente, de maneira cega e dolorosa. Mas como não se pode voltar no tempo, eu acabo sempre dormindo tranquila.
                Talvez tenha sido só disso que eu precisava: de uma boa noite de sono, ou uma boa tarde de sono. Não importa. Importa é que abandonei minhas doenças, porque o tempo é mestre em cicatrizar feridas fundas.

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