A barata alpinista
Eu precisava distrair-me porque era ano-novo e eu não queria passá-lo sozinha chorando de depressão, fumando e bebendo vodca. mas foi assim que eu passei e relembrei de todas as merdas que fizeram 2012 serem foda, e
havia uma barata gigantesca no meu quarto subindo pelas paredes e caindo
repetidamente. Não gostava de matar baratas. E só precisava encontrar um jeito
de fazer algo útil sem prejudicara a mim mesma, porque minha própria sombra já
era suficiente para uma revolução desnecessária e explosiva da minha parte.
Embora fosse imatura, sabia que aquela cidade, aquelas luzes, aquelas pessoas
pertenciam àquele mundo, mas eu não. Considerava-me diferente, ainda que não
superior. Já não aguentava mais ficar presa aos mesmos movimentos repetitivos
da rotina incansável do meu tédio de desempregada de férias. Meu corpo já não
podia suportar as regras da sociedade barata e ignorante da qual eu fazia parte
ativamente e consentia o efeito marionete sobre as pessoas, que ia desde as
mais idiotas às mais inteligentes, manipulando tudo e me fazendo de fantoche
num teatro de vaias cruéis que me faziam cair num poço de infelicidade quase
que permanente, porque é isso que acontece quando alguém se submete às regras
em vez de adotar a opção de ser alternativo e não maleável. O que buscava
aquela barata enorme?
Estava cansada de chorar por coisas que já não
importavam mais diante das milhões de novidades que estavam por vir. Até mesmo
porque os amigos eram poucos, porém bons o bastante para arrancar um sorriso
qualquer dos meus lábios ressecados e trêmulos, tomados pela dor e tristeza
incólumes. Andava desgostando das pequenas coisas porque estava condenada ao
ridículo da minha própria maldição, pela qual eu não escolhi, mas tive que me
submeter, pois algumas coisas não são possíveis de mudar.
A única maneira incerta de encontrar a felicidade
momentânea que pudesse fazer com que meus traços doessem menos seria a
liberdade, a qual não posso comprar, pois é dependente da idade e das
circunstâncias as quais eu demoraria alguns anos para alcançar.
Eu havia estragado muitas coisas por causa da minha
eterna falta de tato e extrema sensibilidade que dominava meu frágil coração há
anos. Machuquei-os sem pensar, caí nos precipícios do meu próprio orgulho e aos
poucos fui encontrando tempo e maneira de fazer meus sonhos, que talvez sejam
estúpidos demais perto dos problemas dos outros, tomarem uma forma realista e
tangível. A barata estava perto da porta, quase alcançando o teto branco, mas
de repente caiu. Achei-a incrivelmente parecida comigo, porque sempre faço as
coisas pela metade, involuntariamente perco o autocontrole.
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