Calada na noite
Desliguei a televisão, embora um filme inglês estivesse
passando na madrugada. Esse tipo de filme só os solitários assistem, e eu passo
madrugadas a fio com a televisão ligada tentando dormir com a dublagem mal
feita dos filmes antigos.
Peguei um cigarro e meu isqueiro amarelo e decidi sair
lá fora, olhar as estrelas, sei lá, fugir do cubículo do meu quarto quente e
bagunçado. Meus pés faziam barulho no piso gelado. Abri a porta dos fundos
devagar, com cuidado, como se estivesse cometendo um crime. É estranho como a
noite faz os barulhos mais sutis se tornarem verdadeiros estrondos, mas
estrondos que são sutis à sua maneira. Enquanto girava a chave na fechadura ou
barulho até então inexistente surgiu rápido e alto ecoou na escuridão. Desci o
degrau e senti o frescor da noite, a porta se fechou atrás de mim e eu acendi o
cigarro. O barulho do fogo foi alto e pareceu iluminar o lugar. Traguei e dei
uns cinco passos.
Sentei num degrau e olhei as estrelas. A lua derramou
seu brilho sobre mim. As luzes dos vizinhos estavam todas apagadas, exceto a do
banheiro de uma das casas atrás da minha. Conseguia escutar os barulhos
exteriores que iam muito além da televisão e do tic-tac do relógio do meu
quarto. Alguns flashes de memórias passaram pela minha cabeça, e eu imaginei
onde eu estaria naquele momento se as coisas tivessem sido diferentes entre nós.
Mas tentei esquecer logo, antes que lágrimas rolassem pelo meu rosto. Imaginei onde
tu estarias naquele momento.
Escutava raros carros passarem vez-em-quando pela rua
e escutava tantas coisas, era como se a noite estivesse contando segredos no
meu ouvido. Escutei pássaros no céu, galos cantando, cachorros latindo,
formigas caminhando na grama e até os vermes se moverem debaixo da terra. Só não
escutei gatos vira-latas derrubando latas de lixo, porque seria muito clichê da
minha parte. Vi as sombras das árvores e das grades na parede amarela. A luz laranja
e absorta do cigarro havia se apagado sem que eu pudesse ter percebido.
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