Rebobinando

                 E a luz apagou, foi quando o inferno despencou sobre mim. Claro que estava feliz por estar bem, enquanto o mundo sofria com suas próprias doenças, eu viva no meu luxo classe média sem me importar muito com a dor alheia. Mas não era egoísta, era solitária. Queria dormir, precisava dormir. Mas sabe quando os fantasmas do passado vêm e lhe mostram o quanto você foi idiota esse tempo todo? Eles te jogam na cara que a loucura está em você, sendo destilada por todos os poros da sua pele. E você já não pode escapar da solidão de nunca ser correspondida por mais que se esforce para isso. Muito menos da maldade de não corresponder quem um dia zelou por ti, ou demonstrou estar disposto a aturar tua mesquinhez estúpida.
                Então seus pensamentos ecoam no quarto frio e vazio e você precisa de um cigarro, mas está com o travesseiro molhado demais e tem vergonha de levantar e perceber seu desespero insensato. E essas meninas lindas e saudáveis sendo felizes e encontrando seus sonhos, enquanto você luta para arrumar um emprego, ainda que isso pareça incoerente para noventa por cento das pessoas que lhe disseram que não era conveniente mesmo sem que você pedisse a opinião delas.
                E se comove com coisas reais demais para serem absorvidas enquanto sua pele arrepia e o prazer foi embora por falta de contato, e o calor foi embora por falta de corpos. E toma a dor dos outros e seus ombros doem de carregar a dor do mundo, e sofre por amor sem merecimento, e chora, chora, chora. Dorme sem perceber.


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