O amor não é uma ilusão na América-latina



Funciona como se eu estivesse em um furacão e eu sei a devastação que isso pode causar, e sim, eu sei que sou uma professorinha de merda de espanhol num país de merda e num continente de merda. Sei também que posso ser despejada, que não tenho dinheiro nem comida na geladeira e que nem minha internet ou minha televisão funcionam.
Às vezes parece que pode funcionar, mas de repente percebo que está tudo friamente calculado e meu maktub já não vale diante dos teus argumentos. E essa porra não está em correção automática e eu preciso colocar acentos em todas as palavras e é tudo altamente previsível, porque tu não sabe brincar e quebra as regras do próprio jogo e se fode milhões de vezes pensando que está tudo bem e que nunca vai se machucar.
E então, me joga em uma rua deserta à noite e segue sozinho no próprio quarto porque eu não consigo me encontrar direito, mas no fim eu sempre encontro uma maneira de resolver as coisas sem precisar da ajuda de ninguém. As coisas que fogem do meu controle me transformam em uma frágil peça do desenho do quebra-cabeça que um dia se formará na sua vida. E eu não tenho mais controle direto sobre essas coisas, que grande fracassada que eu sou. Faço tudo pela metade, não consigo dizer não, sempre chego atrasada e nada mais dá certo, mas no fundo eu sei que apesar de tudo eu conquisto algumas coisas das quais eu sempre quis e precisei, mas ainda sim sei que muitas coisas ruins estão me devastando de dentro para fora, de cima a baixo, em todos os cantos a poeira corroendo todos os lados e infectando toda minha casa e toda minha vida, eu prometo mudar, mas eu preciso de um pouco de privacidade e tranquilidade porque a vida não é só feita de libertinagem, eu quase disse amor, mas sei que nada disso funciona contigo, porque eu já conheço teus pontos principais, dos mais perturbados aos mais superficiais e eu não me importo, pois fui invadida e não falo praticamente nada enquanto tenho muitas coisas para dizer e tua boca nunca fecha e nada se compara as tuas mentiras e meias-verdades no meu ouvido e eu sou uma puta burra e sempre caio nos meus erros, continuo porque espero sempre que as coisas possam me fazer bem de alguma maneira do mesmo jeito com que me fazem mal.
A verdade é que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco e eu não consigo resolver nada nessa minha vida de bosta e eu estou muito sóbria e sou vítima de uma insônia e estou mal-acostumada com minha vida livre e com a minha cabeça vazia de possessividades e pensamentos patéticos a ponto de ter saudades de quando minha mente era povoada apenas por cultura. É como se tudo que eu pedisse a vida inteira fosse aparecendo na minha frente e eu fosse vendo que precisamos ter cuidado com as coisas que falamos e pedimos, porque de alguma maneira em algum momento elas chegam até nós mesmo que sejam acompanhadas de consequências praticamente impossíveis de se aguentar nessa missão suicida de tentar algo que é visivelmente tão perfeito e tóxico ao mesmo tempo. E eu vou tentando aos poucos assassinar teu orgulho mantendo minha decência e minha moral intacta, mas as paredes tem ouvidos e os vizinhos tem olhos.
Sem que eu percebesse eu acabei tão fodida quanto eu era antes de ter qualquer tipo de liberdade e sem frequentar os mesmo lugares minhas mentiras e responsabilidades só aumentaram e meu corpo piorou consideravelmente e sem que eu pudesse fazer nada caí num poço de incertezas, depravação, vergonhas e consentimentos frustrados. Preciso dormir e a bateria está acabando, mas o resumo de tudo isso é que eu sou uma pobre Chinaski fodida, corrompida e que vai morrer pobre num empreguinho de merda e praticamente deserdada pelos pais e afundada em mentiras e ilusões.

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