Polifonia no escuro
Às vezes
(sempre) perco o sono pensando se tudo no mundo não é movido pela inveja.
Buscamos ser quem não somos para agradar a nós mesmos, por isso nunca estamos
satisfeitos. A realização pessoal é advinda de algo que admiramos. E eu rasgo
as coisas que não servem mais. No escuro eu me movo e vejo meu reflexo pelas
paredes da casa e vou enlouquecendo e abro todas as janelas e meu cabelo voa e
eu tento prender mas não consigo. Todas as músicas ecoando em minha cabeça e
sua voz é uma sinfonia simpática no meio de todas as outras. E eu colo trechos
nas paredes, passo a vida expondo meus sentimos nas palavras, porque eu não sei
desenhar, mas também não consigo ser objetiva e contar minhas histórias,
milhões de histórias, pois estou fadada ao lirismo de versos brancos que fluem
na minha cabeça, estou condenada ao lúdico e condensada a realidade subjetiva.
Minha subhumana dificuldade de dividir o tempo e fazer o que precisa ser feito.
Mas nada é mais importante do que escrever. Mentira. Viver é importante, porque
é das coisas que eu sinto que eu transformo em palavras, não tão claras, mas
expostas, vomitadas na tela de um computador, quisera eu que fosse na folha de
um papel, mas os anos dois mil só tem isso a oferecer-me porque as árvores estão
acabando, meu velho.
Sinto-me
mal, enjoada, enojada, aburrida, agotada. Preciso vomitar, tenho coisas tóxicas dentro do meu corpo
e no ar que eu respiro também. E continuo (como sempre escrevo) beijando meus
inimigos. Até quando? Até o último suspiro, porque preciso beijar meus inimigos
para poder levar meus amigos para cama.
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