Sobre toda sujeira escondida debaixo do tapete

     O bar estava praticamente vazio e quase fechando, mas ela continuava ali fumando um cigarro atrás do outro e bebendo whisky com gelo, sozinha. Estava escuro, mas as luzes da cidade alimentavam toda sua decadência e ela não chorava. Há semanas não chorava, porque não parecia adiantar muito, as pessoas continuariam hipócritas e imundas e ninguém conseguia entender o quanto tudo aquilo era miserável e o quanto a cada dia as coisas ficavam piores e ainda mais desumanas. Nina Simone tocava enquanto ela apertava os olhos borrados de lápis, lutando contra o cansaço, bêbada e infeliz, com as pernas doendo e as mãos tremendo. Suas unhas roídas, seus cabelos bagunçados e seus lábios pálidos. Suas dores, suas perdas, suas ilusões e suas incertezas. E lembrou de todos as mentiras, todos os orgasmos, todos os livros, todos os poemas, todas as músicas e todos os filmes. E foi como se estivessem esporrando em sua cara e tudo ressurgiu e ela soube que essas coisas não mudam, as pessoas não mudam, elas são assim, elas te julgarão pelas suas roupas, pela sua maneira de falar, de andar e de pensar, porque elas estão vazias e quem está vazio precisa importunar alguém e tentar sobrepujar tudo que não consegue alcançar profundamente, pois não quando não se é capaz de encontrar nem ao menos uma parte de si mesmo já não há salvação, afinal ninguém consegue se encontrar completamente até o fim da vida. 
     Seguiu cambaleante até o banheiro, vomitou, lavou o rosto e passou batom vermelho. Precisava tentar pelo menos ofuscar sua palidez, implantar em si mesma um pouco de sensatez e clareza, mas não conseguiu, suas mãos continuavam a tremer sem parar e sua cabeça girava. Não tinha como voltar atrás e fazer as coisas de uma maneira certa, porque as coisas eram do jeito que eram e era uma pena que as pessoas continuassem se ferindo e ferindo os outros, muitas vezes sem saber. Malditos impulsivos, que não pensam no que vão comer no dia seguinte, que pagam suas contas atrasadas, chegam ao trabalho atrasados, traem seus amores, pagam multas em bibliotecas, perdem o ônibus, faltam aula, mas continuam pulsantes e loucos, porque não sabem viver de outra maneira, porque é assim que conseguem continuar vivos e manter suas meias verdades vivas e eternamente mutantes.
     Era uma vadia estúpida e merecia toda aquela dor, todo aquele sentimento de não saber em quem ou em que acreditar, porque afinal ela não valia nada, ela era fútil, não servia para nada, nunca seria livre dos rótulos. P-u-t-a. Dava para qualquer um, não se cuidava, não se dava ao respeito, por que alguém a respeitaria?
     Levantou-se, deixou uns trocados sobre a mesa e caminhou até a rua devagar, observando os carros, à esmo, com tempestades na cabeça e pedras nos sapatos.

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