National anthem

Já estou excelente em fechar baseados, perder empregos e surpreender as pessoas ao meu redor.
Vivendo na zona leste, tragando a rotina, sem muito tempo para escrever, zonza do submundo, bebendo cerveja todo dia, dormindo tarde, querendo só produto bom,
não consigo largar a mão dele. Minhas ideias estão desconexas, mas está tudo em mim, em cada poro.
O calor fodendo completamente nossa vontade de viver, a vontade que só a planta traz de volta.
O jeito dele de espalhar-se rápido, lançando mão de todas as coisas boas. A minha mania de sonhar sem parar e achar que posso fazer o que quiser,
consertar algumas coisas que não tem jeito e pertencer aos lugares que quiser se opõem ao mundo, e talvez eu não sobreviva.
Eu e o rasta subimos todo o morro de moto, tive certeza de que o rasta branquinho morava naquela rua das Dores e segui, pensando que talvez ele tivesse um chimarrão
e um base para me oferecer. A visão era plena, o sol alto, a fumaça subindo e a cidade inteira pulsando.
Pretinho antigo, não dá mais. Estou muito ocupada agora. Só não quero prostituição, eu não conseguiria dormir. Se ela quiser tudo bem, mas ainda é minha menina.
Nunca compareço aos meus compromissos, estou mais ocupada comigo mesmo do que com os outros, a vida em grupo sempre foi assim, por isso não dá muito certo, é foda.
Se ainda me desse mais dinheiro, eu faria. Só gosto das coisas que não dão lucro. Nasci para isso.
Ele nunca vai poder se comparar, eu sempre preferi a leste do que a norte. Eles são muito mais inteligentes, eles conhecem mais a realidade.
Acho que vou torrar nessa cidade, preciso sair daqui!
Todos os meus produtos de beleza, minha comida saudável, meus peitos maiores, meus anel de ouro no dedo indicador,
minha carteira cheia flutuando em uma praia qualquer...
Ele me satisfaz, pena que eu fumo muito maconha, mas não mais do que ele. Estamos salvos do câncer de pulmão e eu até parei de fumar nicotina.
Estamos afogados em nosso romantismo cheio de marcas machistas.
Disseram que meu nariz está empinado. Gangsta wife. Está muito calor para ler Cortázar. Eu não perdoo ninguém.
Todos os vizinhos nos viram fodendo na janela, humanismo explícito. Ele não tem reclamações sobre o meu corpo. E eu sempre preciso de alguém que apoie
minha baixa auto-estima e minhas crises existenciais, normais em artistas e quase sempre latentes.
Natural em quem nasceu com um pássaro azul no coração, ou o prendeu depois por opção, não importa.
"Es por eso que seduce de tal modo a los artistas, porque abarca todos los elementos que animan la vida: el enigma, lo nuevo, lo raro, la sugestión,
el extasis, el amor; y crea condiciones propicias al milagro y esa disposición de ánimo necesaria para comprendeerlo." Já disse Oscar Wilde.
Minhas falas se alternam entre "-que calor!" e "-cof.cof.cof".

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