Efeitos do autoconhecimento

     Eu e os guris carregamos todas as minhas coisas para o bairro Dores. O entardecer aqui é muito melhor do que eu via pela minha sacada sem poder ver a fumaça contra o sol direito e ouvir música alta. Essa casa tem muitos quartos e é bem grande. Meu rastinha disse que eu podia arrumar tudo do jeito que eu quisesse. E nós dois fumamos um olhando a lua todas as noites, ele aguentando meus raps e eu aguentando os reagges dele.
     Minha sogra chora quando vê alguém cheirando cocaína. Fecho os olhos e penso que ela não faz ideia que aquela puta usa e usou o tempo todo, enquanto meu amor jura que não. Eu não direi. Não hoje. Então tudo bem, é bom quando quem não aguenta, não sabe. A verdade é só pra quem aguenta. Só quando estudo o passado compreendo o presente, porque nada escapada de consequências.
     Eu nunca pedi mansões, nem mesmo carros, eu só pedi que eu pudesse, de repente, transformar minhas palavrinhas ordenadas não tão bem em dinheiro suficiente para pagar um aluguel, uma luz, uma água e tudo que é básico. Também vejo as favelas, antes senzalas, fracassando. São anos avançando no papel de educar os meus pretinhos e fazê-los ver que a arte reflete toda a nossa realidade. Há avanço. É isso que me dá vontade de lecionar. Triste também saber que não posso mais participar daquela bolsa, por causa do blog, porque dizem que sou vulgar, vulgo puta, não me ofendem, mas vou embora, porque é tudo arte, queridos que usam camisa, coisas que li e fiz, que vocês não aguentam, nunca ouviram falar, mas tá no mundo, nas canções mais lindas, poesia mais puras, vozes mais angelicais.
     O quarto de despejo é sempre assim, Carolina ensinou-me que só há dois lados, esse é o lugar que nos jogaram, ela também sabe que nada vai mudar, não temos recursos para iniciar as mudanças. Durmo querendo morrer, acordo querendo viver, quem não sente na noite a solidão e na luz clara da manhã a mansidão que dá esperança? Ainda não há sinal de respostas das bolsas que me candidatei. Meus leitores sempre serão meus psicólogos. Mas bom mesmo é foder pela manhã e ficar feliz o dia inteiro. Estou com dinheiro suficiente para comprar livros e maconha. Estou feliz com esse meu tipo estranho de dignidade.

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