Destoada

Chorei e sufoquei, timidamente minhas lágrimas foram caindo, agarrada às barras do ônibus, balançando, em meio as patricinhas que não cedem seus nobres lugares na frente para idosos de muletas e bengalas nem para pais com seus filhos no colo, em meio à músicas que me emocionam e me tocam bem no fundo da alma, das lembranças. Nenhuma dor dura para sempre, mas quando existe é devastação. Não há palavras, apenas fome. Pessoas idiotas me ligam e perguntas sobre suas burocracias idiotas às quais não sei resolver, me xingam. Professores me dizem o que fazer e sabem que sou um péssimo projeto de secretária, porque nunca pergunto quem é no telefone.
Não sabia mais o que fazer com meu vazio, indisposta para tudo, comendo muito mal e não vendo onde estava a graça nesse frio tudo e em toda essa miséria.
Rendi-me. Sentamos na calçada daquela rua em que os carros só sobem em frente ao prédio que estou morando e fiquei de pijama no colo e emudeci, fiquei séria, faz tempo que não sei o que é um sorriso verdadeiro,  cem mg, alguns cigarros para aliviar meu cansaço de todo limo brotando das paredes úmidas dos prédio pixados e idiotas gritavam torcendo pro causa de futebol enquanto eu não me interessava por nada além de música e literatura. Minha perna continua ruim. Estou com o sangue podre. Me destituí das palavras rasas e me submeti à realidade dolorosa daquilo que faz feliz, pois a euforia nunca é gratuita. Meu corpo não aguenta mais nenhuma substância, mas permaneci desfrutando das minhas mãos poderosas.
Duas da manhã e eu com sono, sem imaginar que não dormiria tão cedo. A fanta uva ficou quente sobre a mesa e meu quarto estava não quentinho, mas não era mais meu. Nada era absolutamente meu, pois tudo precisava de um papelzinho chamado dinheiro. Din-hei-ro. Eu não consigo fácil, mas se quisesse aposto que conseguiria, porque sou boa em tudo, mas a arte escolhe os que ficam debaixo de holofotes e padrinhos, não de subalternos sociolinguistas e entusiastas lutando por igualdade.
Mostrei meu texto, a roupa caiu no chão, tremi. Não gosto de observar alguém lendo o que escrevi, nem mesmo de reler, pois sinto vergonha de minhas palavras, muitas vezes parecem loucura e se perdem, o sentido é alterado porque eu mudo sempre. Quanta insensibilidade. Na tevê passava uma série merda de humor - mas eu não achava a mínima graça- que tratava de situações idiotas às quais muitas vezes atravessei. Sempre atravesso qualquer travessa com toda minha travessura. Não suportava meu cérebro com uma faca enfiada nele e nem as conversas cansativas, impróprias e forçadamente chatas em que a velha que aluga o quarto para mim me prendia. Ficava ali com as coisas suspensas, tentando entrar em meu quarto. Carinho para que eu não pudesse usar a máquina de lavar e congelasse minhas mãos no frio. Gente maniatica e desinteressante!

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