Mobília
Preparei um café doce
demais e me senti pronta para escrever. Quero me movimentar através da arte das
palavras, gosto de lidar com elas sem ter nenhum compromisso estético, sequer
existe uma escola literária para mim. Cansei de observar a cidade pulsar e apenas
ter a consciência de que meu coração segue batendo. As coisas seguem
acontecendo, sem interrupção. Existem travas em mim que dificultam uma
publicação, mas seria bom assumir-me escritora completamente e ter um livro de
autoria minha, comigo sendo a estrela principal. O ônibus com o letreiro vila leste
passa em frente de casa e sei exatamente que horas são. Meus objetos se
misturaram com os seus por mais que eu tenha relutado, simplesmente levei
alguns embora, mas existem tantos – destruídos também. Há momentos em que
somente estar alimentado não basta. O limite da selvageria indômita é
ilimitado. Eu sigo aqui, eu pertenço a esta mobília. Você me diz que eu deveria
escrever um livro. Que tipo de literatura o mercado editorial aceitaria. De
repente todos os sonhos parecem perda de tempo, e as coisas não saem como o
planejado. Preciso de mais e mais literatura para a bagagem nessa viagem sem
destino. Ninguém consegue pagar por tudo sem trabalhar. Tento pagar por tudo
que preciso. Nossas coisas nunca estão bagunçadas. Apenas meus textos são
desordenados sem proposição.
Tomaria um porre com você,
acabei de ver os comentários, você é uma barra de chocolate suíço meio amargo,
mas eu só sinto o seu doce, fundo – pro fundo. Suas palavras poderiam deslizar
por minha pele e seria como heroína – minha heroína poeta de esquina. Aceito
sua proposta, café com whisky transbordando no copo barato. Vamos fazer uma orgia
com livros da alta literatura? As letras que fluem dos teus dedos são como a
fumaça de uma ganja jamaicana, morena. A estação das nossas vidas tem destinos para
não acabar, muito além do Passo da Guanxuma. Os mais melancólicos poemas de
Benedetti jamais serão suficientes para a sede do artista suburbano, minha
amiga.

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