Capítulo 4: A paixão


A luz do quarto está apagada e duas velas vermelhas estão acesas.
O cheiro da fumaça do incenso lembra madeira úmida, algo semelhante ao odor de corpos que se atraem e suam. O aroma doce do óleo de almíscar aquece o ambiente, espalhando-se pela casa inteira. Nos últimos anos, a sensualidade de Martina desabrochou. Ela acende um cigarro e abre a janela lentamente. O silvar do vento é o único som audível. Sentia uma angústia antes desconhecida.
A madrugada se aproxima, somando mais horas sem conseguir dormir. Na penumbra, Martina procura o livro que poderia ajudá-la. Ela já havia perguntado a Manuela tudo que era preciso: a data, a hora e o local de seu nascimento. Estava preparada para calcular a sinastria amorosa que revelaria a compatibilidade do casal Martina e Manuela. Sempre acreditou que combinaria. Martina tinha sol em sagitário e ascendente em capricórnio, apreciadora do novo. Manuela, sol em touro e ascendente em sagitário, apreciadora da rotina.
Estava tudo pronto para o início das análises astrológicas. A casa 5 explicaria tudo sobre criatividade e amor no mapa composto. A mesa já estava posta: toalha e velas vermelhas, incenso de almíscar, papel, lápis, canetas coloridas, régua e compasso. Um livro astrológico e um guia efemérides estavam abertos sobre a mesa. Era tudo que guiaria seus estudos em busca do autoconhecimento.
A desconfiança de que Manuela não sentia o mesmo por ela, fazia com que uma sensação de vazio percorresse o corpo de Martina, da mesma forma que um vento frio estava entrando pela janela e lhe causando arrepios. Colegas desde o ensino fundamental, ela não suportaria dar-se conta de que se trata apenas de uma amizade. Elas sempre foram tão amigas, que esse era o exato problema. Manuela era cética, racional e insubordinável. Pelo menos, ela era confiável, como as pessoas taurinas costumam ser.
            Os astros foram contundentes sobre as posições dos planetas nas casas, as latitudes e longitudes. A relação duraria, somente se vários aspectos fossem trabalhados continuamente. Sem estar certa de que Manuela estaria disposta, Martina estava decidida. A sensação era de que Manuela a atraía como um ímã. O magnetismo era intenso, porém muitas discussões estavam por vir. Uma delas sentiria mais romantismo. A outra estaria mais inclinada a uma amizade que a um romance. Martina sabia quem desempenhava cada papel. As duas teriam que tolerar seus diferentes hábitos e pontos de vista para que a relação funcionasse, considerando que havia pouca sintonia na casa 5.
            Aos poucos, a compatibilidade amorosa se formava na superfície do papel. O mapa composto demonstrava claramente que a relação seria insuportável. Os movimentos dos dedos de Martina ao contornar as formas, antes tão motivados, agora estavam desesperançados. A única salvação era a posição do sol em peixes. O astro rei daria força para que esse amor se concretizasse e superasse momentos difíceis. Elas precisavam conversar. Talvez nem valesse a pena tentar superar a tensão que ocasionaria a união.
          O vento forte apaga as velas e a escuridão toma conta do lugar.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A árvore verde e boa

Um estranho familiar

Sobrevindo colorido