Confissões e transgressões

A lua crescente como uma pintura no céu, avisando que a madrugada se aproximaria com coragem, depois de uma nova decepção. Fico imaginando o tempo todo: "Você é real e como eu me lembro?". Fui até a leste em um impulso calculado há quase um mês para confirmar tudo que já sabia: a paixão pegou fogo e se espalhou pela vila. Nós dois sabemos que estamos com os corações quebrados, por mais que todos saibam que somos rompecorazones, heartbreakers desde a adolescencia. Parece que estamos bem, porque sorrimos e desafiamos a sociedade sem medo, embora não consigamos admitir em voz alta que, ainda que tenhamos o humor leve, a profundidade de nossas cicatrizes estão bem escondidas debaixo de nossas tatuagens impressionantes, que não foram feitas para agradar. Enquanto fumamos, eu cigarro, você palheiro, te pergunto se você acha que duas pessoas que são iguais podem dar certo. Você me diz que acredita que podem, mas que muitas brigas podem acontecer no caminho. Nós nos confessamos artistas da palavra, obcecados, apaixonados, intensos, complexos, transgressores, subversivos, frenéticos, divertidos, hiperconectados, eróticos, carente de atenção, carinho e amor, esse é nosso modo de vida, o único jeito de viver que conhecemos. O problema é que tudo isso choca essa cidade mediana e nos assusta. Você afirma que sempre será meu amigo, porque os privilégios não acabam e podemos confiar. Se avançamos, podemos colocar tudo a perder com nossa loucura. Adoro vê-lo performar o papel de gangster, isso é só a superfície, eu enxergo um garotinho machucado pela vida se esconde debaixo dessa pose, porque o vi se desenvolver, fazendo sempre o melhor que podia, não foi muito... Agora que o tenho de frente, incrédula, vejo o real, cheio de falhas, sem conseguir sustentar suas vontades, você vive de um jeito diferente do meu. Impossível que eu o julgue, se estou muito acima na classe social. Ele se dá conta, mesmo sem admitir, de que perde tudo em uma cama comigo, quando me olha fixamente nos olhos e me conta detalhes de sua vida familiar, expondo o coração, enquanto falamos sobre tudo que disseram de mal nós, manchando nossa re(puta)ção tão bem construída. Dizem por aí que somos desequilibrados e instáveis, que você está fora da lei, isso é porque amamos demais e não somos correspondidos. Trocamos confissões sobre relações nas quais só nós investimos, por isso somos vistos como os que erraram, mesmo que nossas falhas tenham sido consequência da atitude sem consideração dos outros. Todas as coisas que temos em comum parecem que são capazes de nos salvar, mas e se não forem? Ele gosta desse estar nesse filme que montei para ele, contando as fofocas sobre ela e seu novo amor e antigo amigo dele, isso o atravessa de um jeito torto. Sinto que o embebedei com a garrafa de gin que levei e arranquei todas as coisas que ele jamais diria sóbrio. Quando nos esbarramos, presos no quarto underground, parecemos duas crianças imparáveis, mentes ansiosas pensantes, que não conseguem dormir e precisam falar. Ele fala tanto que me ganha, como uma metralhadora de palavras, até mesmo quando sonha, capto algumas de suas palavras, são sonhos sobre vendas ilegais. Gosta de mostrar suas influências criminais que estão atrás das grades, gosta de mostrar suas influências artísticas também e confessa que bate forte saber que artistas me validam na rede social, quando mostro minha arte. Estava vendo um documentário de rap quando cheguei, depois colocou funk e piseiro, até um reggaeton. Ficou cantando, porque isso é o que ele sabe fazer melhor. Ele sabe bem que tem ciúmes de mim e está apaixonado, está perdendo o controle de tudo, sempre jogando a bola para mim, quando perguntou se ele se apaixonou, fala que isso assusta, pergunta se eu quero, digo que é lógico que sim, tudo fica por minha conta então. É mesmo possível estar com ele? Ele está quebrado, ainda que não admita totalmente. Eu sei como consertá-lo, mas também estou destruída. Vai guardar nossas fotos, fascinado com meus pés, meu sorriso e meu corpo. Sente vontade de postá-las, porque gosta que todos saibam que andamos juntos, quer se vingar de todos que nos fizeram mal, porque eles estão unidos contra nós, cada um deles, esfregando felicidade na nossa cara. Brincamos com isso, porque só nós sabemos do que eles nem imaginam: estamos presos um ao outro e somos orgulhos e loucos, capazes de tudo pelo ego de ser quem somos sem submissão. Brinca se colocando em um lugar mediano, se comparando fisicamente com o cara que ele odeia, aquele que é meu e é amigo dela. Digo que não se preocupe, ninguém nos encontrará e que vou defendê-lo sempre com palavras, com minha força e com armas, se for preciso. A verdade é que basta que eu tire a roupa para controlar todos eles. Ninguém pensou, quando foi a nossa vez de sofrer, ele afirma. Disse que quando correspondi, ele desfrutou em saber com quem eu morava. Era tudo que ele queria, eu já poderia imaginar que bastaria uma vez para que nem mesmo as minhas mentiras que ele finge acreditar, pudessem parar esse jogo perigoso e sexual que estamos jogando. Ele me mostra todas suas tatuagens, algumas eu já conhecia há anos. Ele recorre meu corpo e conhece as minhas de cor, ele tem uma favorita. A fascinação dele por mim, me fascina. Se isso for crime, vamos presos. Me pergunta se o visitaria se fosse preso, eu digo que sim. Me pede para ter um filho, mesmo que já tenha uma menina, porque queremos um menino só pra ser mais um de nós, para nunca nos trair como os outros fizeram. Se o cachorro dele gostou de mim, posso dizer que passei no teste. Falamos sobre nossos preconceitos mais vergonhosos. Disse que não poderia tocar o centro de sua cabeça, porque é sagrado na umbanda. Gosto de ser sua informante e dizer tudo que se passa com ela e seu ex-amigo. Ele ainda a ama, por isso dói tanto nele. Ele deve estar confuso a essa hora, mas admira quem eu me tornei com fogo, dor e medo, aproveitando para contemplar o incêndio que se espalha por minha causa. O mais sublime é que eu não entendo quase nada que ele diz, com seus códigos constantes de linguagem. Essa intimidade é tão perigosa que precisa desaparecer, mas sei que ele voltará, apesar de eu ter sujado suas roupas como só uma mulher pode fazer em algum momento, quando não pode mais controlar seus instintos, apenas de tudo que vai contra o mundo que criamos, ficando acordados até a tarde, quando o sol bateu forte e dormimos com os programas de sábado, depois de fazer planos que ficarão só na nossa imaginação indomável, além de relembrar nosso passado infame e inesquecível nas ruas. Cumpri todas as suas fantasias e vocês fez o que prometeu por mensagem. Dormi com sua camiseta para deixar meu cheiro nela. Quando despertamos, quase ao anoitecer, percebemos a realidade a nossa volta. Ela nos devorou e nos separamos. Somos tão lindos juntos, como se fôssemos jovens outra vez. Enquanto assistíamos a novela, ele me faz esquecer dos problemas que estou passando e de toda a dor que me queima por decepção amorosa. Ele me resgata na emergência e diz que posso chamá-lo para me resguardar, mas também posso contar nossos segredos, posso fazer o que quiser que ele estará para mim. Mas ele não é capaz de me salvar, nem pode ter esse peso. Podemos querer, mas não conseguiremos sustentar, isso machuca. De qualquer forma, isso não é suficiente para conter o fogo. A menos que ele realmente conseguisse um lugar para a gente viver, como diz que consegue. Nesse caso, o fogo se espalharia ainda mais e nos consumira dentro da casa, porque duas personalidades limítrofes são incontíveis em sua liberdade. Eu esqueci o relógio no banheiro e ele me avisou que estava lá. Não preciso ver a hora quando estou com ele.

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