Rotina e escapismo
Essa alma dele é como a minha, nunca se cansa de andar de uma casa a outra, de um bairro a outro, sem falhar uma semana. Ele é difícil de encontrar, mas quando quer me ver, quando está bêbado, se manifesta a qualquer horário do dia. Gosta que eu diga sim com todas as condições, dá um jeito de vir para o bairro vizinho onde fico quando não estou na casa dele. Me divirto com o cachorro dele, porque gosto de tudo que me faz feliz com carência ou obsessão, atravessando inconsciente e passando pela memória. Beirando sempre a abstinência, eu vivo em ritmo acelerado. Ele sempre lembra de me dar cigarro, ponto fraco de fumante é ver o outro sem. Pede que o ajude a escrever um livro, mas precisa de um caderno novo para escrever suas letras. Nunca cuido dele, mesmo com ressaca, porque eu sempre estou bem, mas não me esforço para nenhuma tarefa doméstica. Eu nunca fui uma mulher tão elevada e fora do esperado em toda minha vida. Quando se acalma, vemos TV aberta o dia inteiro, envoltos em fumaça, seja de tabaco ou maconha. Também alternamos séries no seu celular, da grande locadora mundial. Me agrada porque fico bem perto da sua respiração. Quando vemos documentários de história do rap, fofocas que adoro, endosso e conto por aí, mas ninguém me entende algo intenso acontece. Ou então dos mesmos canais de vídeos favoritos nossos, ele sabe que somos um para o outro, pertencemos aos anos 90. Arrasto a semana com ele, até que ela chegue ao final e eu veja que permaneci intacta e consegui cumprir todos os meus compromissos. Ele me contagia com sua preguiça, mas nada supera nossa competição para saber tudo sobre os atores do mundo todo. Quando nós mergulhamos no cotidiano, nem parece que existimos fora desta casa. Nem parece que meus livros estão vindo pelo correio e eu sou uma escritora. Nem parece que sou livre e minha mente está insana.
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