Vampiro

Ele gritou inúmeras vezes que me amava na cama, sob efeito de álcool e marijuana. Dessa vez, o deixei ainda mais vulnerável, abriu seu coração, falou das duas, até mesmo de um filho que perdeu com uma delas. Conheço a vida dele, vivo acompanhando. Ele já pode esquecer de tudo isso, deixar lá no fundo da memória, porque a vida dele está mudando e ele percebe que até os famosos estão atrás de mim, agora ele é meu groupie, porque a escritora famosa sou eu. Seu ciúmes se transforma em admiração, porque sou sua indiazinha. Me pergunta o que sou para ele, não soube dizer e o silêncio nos engoliu na escuridão. Ficou insustentável suportá-lo alcoolizado, mas eu tenho muita paciência até mesmo numa sala de aula lotada. Ele pode derrubar tudo dentro do quarto, cair algumas vezes, eu absorvo sua fragilidade, porque posso sentir suas feridas. Todas as coisas da vida dele parecem haver desmoronado da pior forma possível. Me diz que mandou nossa foto para seu pai, pergunta como se faz para me assumir. Pergunta repetidas vezes se estamos juntos ou não, pergunta se vou ficar somente com ele, diz que vai me matar se eu não for fiel. Eu rio, duvido, atormento a mente de qualquer garoto que se esconda debaixo de roupas e tatuagens. Ele já escreveu um romance vampiresco, me diz que fez capítulos. Vive tentando me mostrar o quanto é bom, mas não escreve uma letra nova há pelo menos cinco anos e só o que restou foi histórias de grandiosidade, como abrir grandes shows de rap na capital gaúcha. Isso foi há dez anos, agora é a minha vez de brilhar. Deve amedrontar os garotos que estão acostumados com foco total que uma mulher como eu esteja no auge, sempre emergindo em todas as áreas, até na arte. Sabe que sempre vai perder para mim na cama, isso me fascina, está na minha mão. Ele é minha rebeldia mais viciante, é como uma droga, da qual ele me prometeu aliviar a abstinência. Não posso julgar um coração tão bonito e ferido, eu também tenho um assim. Ele quer ser apresentado à minha família, mas não sabe no que está se metendo. Saímos à rua para comprar bebidas e talvez tenham nos avistado, mas não nos importamos muito com esse perigo. O outro me liga e pergunta se já achei um machinho para me comer do jeito que eu gosto. Isso não é da conta dele, porque nem é uma necessidade. Estou em águas muito mais profundas, estou no sentimento, no real, algo que ele não vai encontrar facilmente. Se nota que estou estranha, com borboletas no estômago e vendo tudo colorido. Isso é errado ou é o que todos querem viver? Intenso, subversivo. Pensam que estou saindo no centro, indo em festas. A verdade é que estou trancada em um quarto escuro e ele me roubou para ele, cozinhou e me levou comida da cama, eu fiquei totalmente suspensa, como que o relógio parasse e só nós existíssemos nessa cidade fofoqueira. Vivo tentando adivinhar seus pensamentos, não é algo difícil, porque ele é previsível, acostumado a ser procurado e a ser orgulhoso. Me diz que já está com saudade depois de quarenta e duas horas juntos. O que nos falta é a liberdade, não buscamos dinheiro, eles não podem comprar uma relação assim. Nós queremos incomodar mostrando nossa paixão. Pode ser que não seja amor, mas deve incomodar cada pessoa que nos descartou. Adoro estar no seu mundo real, ainda que não tenha conseguido trazê-lo ao meu. Ele lembra de detalhes daquela noite, todos os que esqueci. Mas nós dois lembramos que nos sentimos nas nuvens. Como é bom ser jovem outra vez depois dos trinta anos. Esse vampiro me mordeu, me bateu, me queimou e eu gostei, porque ele é lindo depois que faz tudo isso e vai dormir, calado, despido, mas não sozinho. Nós sabemos muito de cultura pop, assistimos televisão e comentamos sobre todos os artistas. Ele faz questão que eu durma com sua camisa do Brasil. A sensação é que não há ninguém mais brasileiros e favela como nós dois juntos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A árvore verde e boa

Um estranho familiar

Sobrevindo colorido