Qualquer negócio é uma merda sem você



                Estava acostumada com essa capacidade hipócrita de desdobrar os outros para conseguir o que se quer. Manipulação acabava em escravismo. Os dias já andavam se arrastando há meses e como se não houvesse outra opção a não ser fugir, Ísis resolveu sair de fininho. Talvez sumir assim fosse uma espécie de suicídio, mas a maneira como era capaz de fazer as coisas sempre foi independente, e isso as pessoas já sabiam que fazia parte dela. Aquelas milhares de decepções nunca mais precisariam ser lembradas, porque os fantasmas retumbantes já não fariam parte de sua realidade repleta de sonhos e sono causado pelo cansaço de ser uma andarilha errante e cigana. Queria mar. Queria sol. Queria chuva. Queria lugares distantes, onde ela saberia que não toparia com ninguém com quem já conhecia. Não queria mais ouvir aquelas músicas que a faziam lembrar dele e assaltavam seus olhos nas madrugadas quentes de verão e faziam as lágrimas rolarem repetitivamente no silêncio da noite quando a TV já não funcionava mais porque a conta de luz não tinha sido paga e ele a havia abandonado. Estava cansada de soluçar por alguém que lembrava dela quando ficava de pau duro por assistir pornografia na internet e não ter ninguém por perto com algum buraco em que ele pudesse meter. Ele que pegasse alguma vadia, que não fosse ela, porque na verdade ela era uma vadia, mas vadia que ama é burra. Então, ela era uma vadia burra. Estava impossível continuar madrugadas inteiras tossindo no meio da fumaça do cigarro com a janela aberta por causa do calor, pois o ventilador nunca poderia ser ligado se continuasse sem luz e tinha só uma garrafa de vodca ao lado da cama porque a geladeira também não funcionava nem mesmo para colocar uma cerveja para gelar. E dormir com aquelas camisetas rasgadas e velhas e lembrar-se das camisetas dele. Que ficavam lindas nele. E sonhar que nem que fosse somente por algumas horas ele já havia sido dela. Mas as noites nunca voltariam e ela já não tinha nada para fazer além de chorar e relembrar o que há meses vinha corroendo seu coração fodido e não pago. Óbvio que existiam outros filhos da puta que passavam pela vida dela e corriam. Mas geralmente ela se lembrava deles por no máximo uma semana, e depois eles já não faziam mais falta. E as lágrimas que caíam por causa dele, seu filho da puta preferido, eram mais salgadas que as outras. Ela não entendia o porquê, mas eram. Quanto maior a dor, maior o sal. Foda-se, ele nunca cresceria. Mas ela sim, ela ainda seria uma pessoa feliz, de um modo que ele nunca ousaria sonhar. Ela poderia salvá-lo ou se jogar na sarjeta junto com ele. Mas ele não queria, ele gostava de viver na merda de sempre e não ter emprego algum, gostava de ser um fodido. Mas fodidos que não crescem não são normais, eles são superfodidos. Esses não tem salvação, porque quando acordam de seus sonhos de juventude percebem que a única coisa que ficou igual foram seus nomes, porque nem suas roupas serviram mais, e amor de suas mães já estará cansado, e alguma de suas garotas estúpidas estarão grávidas aos dezesseis anos, e aquela garota que um dia se ajoelhou na frente dele já está longe, em outra cidade, vivendo outra vida completamente diferente da realidade dele. E seus amigos já têm emprego e falam inglês e ele não conjuga nem o verbo ser do português certo, porque nunca ouviu falar em concordância. Então, ele se afoga numa lama sem fim, fedorenta e podre e nunca mais alcança a superfície, porque sua nova garota grávida já pariu seu filho, e ele tem que trabalhar de pedreiro na construção de um prédio que um dia será um grande escritório em que seus amigos vão trabalhar, e ele compra leite para seu filho, e sua garota está grávida de novo, e mais um pretinho vai vir ao mundo, e não há nada que a velha garota possa fazer, porque ela já não sente as mesmas coisas de antes, e ele já não será capaz de alcançá-la e seus amigos colocaram seus filhos numa escola particular e sua garota já não aguenta sua mania de beber e manda ele embora de casa, e ele tem que pagar pensão para seus filhos, e para os filhos que acabou fazendo com outras garotas porque já não tinha ninguém com quem fazer sexo e porque nunca teve o hábito de usar camisinha, e sua garota de ouro, a única que o amou de verdade já se casou, com um cara que até parecido de físico com ele, tem o olhar parecido, a boca, as cicatrizes, a voz, as roupas e a vontade de viver, mas claro que esse cara não tem o mesmo valor pra ela, porque ninguém no mundo seria capaz de substituir seu filho da puta preferido, nem a réplica mais fiel despertaria os mesmos sentimentos que ele era capaz de despertar nela. Mas agora ela já está mudada, e não precisa mais dele. Agora já é tarde demais, e todo mundo se fodeu, de uma forma ou de outra. Mas a vida continua, e o tempo engole toda a espécie de dor.

Comentários

  1. Hola guapa, hermoso texto, un placer.
    te dejo mis saludos desde Valencia.
    feliz semana.

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  2. Gracias amigo! Un besito de Brasil.

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