Cicatrizes de noites do ano passado


Eu sinto falta de quando alguém me levava pra casa na madrugada fria, quase manhã. Ou de voltar sozinha depois de ter fugido e bebido demais. Atravessava as ruas cambaleando e com o coração cheio de caos e o corpo sempre sujo, por dentro e por fora. E eu passava frio e tinha alguns amigos, dos quais me afastei fisicamente ou propositalmente. Às vezes sinto falta deles, mas tudo mudou e aquele tempo nunca mais voltará.
Agora ninguém me maltrata. Perguntam-me como estou, vêm me visitar, me dão carinho de verdade. Mas eu sinto gestos frios, muito diferentes do que andar de mãos dadas, mesmo sabendo que no dia seguinte ninguém mais faria parte daquela realidade inventada, só por uma noite. Apenas ficaria na memória, cada movimento, cada palavra. E as sensações se adeririam aos corpos até os mesmo virarem pó. Eu sabia que era tudo mentira, mas mesmo assim gostava de viver uma ficção. Aquilo fazia com que minha vida se movesse, ainda que fosse com sentidos falsos.
Hoje não. Hoje a realidade é muito real. É crua. Porque não há álcool e as coisas não acontecem à noite e a coragem de dizer algumas coisas me escapa. Mas sei que ficarei bem. Sempre sobrevivi a todos os maltratos.
O passado está atrás de tudo que um dia se moveu e hoje está estático.


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