Diário de bordo sem nego nenhum

Cheiro de liberdade. Perdida nos anos 2000, no caos da nova era. Nenhuma cerveja na geladeira e dinheiro somente em notas altas. Sem carro, moto ou bicicleta, apenas minhas pernas mal treinadas e o vento na janela denunciando a minha solidão e a fumaça dos meus cigarros. Sem amigos, pois traí todos, ainda que inconscientemente. Acho que tento fugir de muitas coisas, tenho vergonha de quem fui, e ainda sou, e sempre serei, porque não é possível sumir, suicidar-se da própria vida. Nunca escrevi textos bonitos. Vivo sem contato com pessoas que amo, porque não quero ser responsável por machucá-las com minhas mudanças de humor repentinas, nas quais vou de um extremo ao outro com uma facilidade que torna tudo difícil para mim.
O que está acontecendo nesse momento é tudo que sempre quis durante anos, mas ainda não é o bastante, havia um tempo que eu queria muito mais isso tudo. Eu tinha tudo, queria muito encontra-los. Eles sumiram, eu sumi depois deles. Negos inconsequentes assim não merecem meu amor completo e minha melhor parte, e a escolha foi deles. Eu apenas pensava que um dia viria e encontrá-los e sentir nessas ruas novas um prazer que me fizesse dormir melhor, ou então me causar uma insônia. Mas não, eles estão com outras negas, elas venceram porque eu cheguei tarde demais.
Ninguém com quem fazer sexo ou fumar um. Nada de bom. Mas a única coisa que me traz paz é saber que mesmo sozinha tenho a cidade inteira à qualquer hora com suas luzes esperando para me tomar e estuprar, porque é assim que eu gosto: sentir as ruas nas noites sem fim.


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