Ninfomaníaca de corações



Gosto de nicotina na boca, a casa toda cheirando a cigarro e meu corpo cansado e diluído no álcool. Nada de promessas e frases feitas, apenas a sensação de um sonho realizado e nenhuma certeza real do que poderia acontecer depois. Nenhum dos dois se importava, afinal, o mais importante era o que estava acontecendo ali. Sabia que mais dia ou menos dia isso iria acontecer. Três anos de atração platônica fizeram de mim um bom experimento da lei da atração. A ninfomaníaca de corações e o Number One da escola. E ali estava eu, nua e bêbada, com as contas e o aluguel pago e a televisão desligada, com a geladeira vazia e o freezer cheio de cerveja, com a cama bagunçada e ocupada do meu lado e o cinzeiro cheio e a pia transbordando. A janela entreaberta para deixar entrar um vento que refrescasse aquele furacão que invadiu meu quarto na última semana. Eu não tinha pretensões concretas sobre minhas vontades, mas se ele quisesse ficar ali para sempre eu deixaria. Sempre soube que daria certo se nós tivéssemos a oportunidade de estarmos sozinhos num lugar qualquer e com uma percentagem regular de álcool na corrente sanguínea. Ouvíamos as mesmas músicas, gostávamos das mesmas coisas e encarávamos os problemas sociais da mesma maneira. Eu precisava morrer tendo feito aquilo, porque era digno de uma pessoa boa como eu, que nunca matou ninguém, que pelo menos tivesse a chance de foder com quem quisesse muito.
Lembrava muito bem de todos os gestos, da voz e do rosto dele, porque tempos de convivência me obrigavam a ter todo isso guardado na memória sem que eu precisasse forçar muito para lembrar. Realmente nunca pensei que isso fosse possível, pois eu estava bem abaixo de tudo isso, perdida num mundo que não era o meu, onde eu ainda tenho um pouco de mim perdido, e não deveria, porque se eu fosse homem seria exatamente como ele era. Aquelas outras noites cheias de álcool e drogas não foram feitas para mim, a rua não é minha, os prédios são meus, os concretos são meus, a cidade do lado de dentro, o rock nas paredes e não as rimas do lado de fora. Custei a perceber isso, mas só agora me dou conta do quanto eu estava enganada todo esse tempo. O problema é a atração, não adianta ter livros na cabeça e cultura musical se não em dá vontade de tirar a calcinha. E eu precisava de alguém que não só me desse vontade de tirar a calcinha, como também a tirasse. E isso estava difícil com aqueles outros que não sabem a sensação de tudo isso, porque estão preocupados com coisas que conhecem mal e não saber fazer a coisa direito. A gente percebe quando a pessoa sabe fazer a coisa direito, está no rosto dela.
No passado, eu não tentei manter nenhum tipo de contato, então depois de tempos ele veio e olha só para mim, completamente diferente do que eu era, aquela garagem me transformou nisso, uma puta que não gosta desse rótulo, uma ninfomaníaca de corações, porque fodia com todos eles, principalmente com meu próprio. E eu tomada por um instinto selvagem ainda tinha tudo que tive um dia, muita cultura e todo o amor, além da incrível habilidade de contar mentiras.
Óbvio que ele gostou de tudo isso, ele não esperava nada disso, foi surpreendido pelas minhas habilidades eróticas quando estamos só eu e ele, e a minha coragem de fazer o que elas não fazem. Perguntei se ele come mais verduras do que proteínas, porque o gosto da porra era bom.
Ele levanta, acende outro cigarro e me olha sério. Sinto medo dele, sempre senti. Às vezes parece que ele é capaz de matar alguém por um motivo qualquer, como quando lhe pergunto por que ele fecha a porta do banheiro quando vai mijar como se eu fosse sua irmã e não amante. Ele fica puto e eu me calo. Por que eu ajo assim com ele? Talvez eu saiba que ele vale muito para mim, mas com certeza não vale tanto para as outras, porque quando pergunto a elas o que acham elas dizem que não acham tudo isso. E eu fico pensando naquelas putas se jogando em cima dele, e reflito que eu não sou uma delas, pelo simples fato que as coisas que eu faço têm a ver com meu fetiche e eu sou culta, não estou na quinta série estudando à noite e não entrei em coma alcoólico aos catorze anos e nem tomei chá para abortar um filho meu aos quinze, porque eu não faria essas coisas, eu não chamo minha mãe quando tudo dá errado, eu resolvo as coisas sozinha, porque amanhã minha mãe pode morrer como eu sei que irá, mas eu tomo minhas responsabilidades e não preciso contar para todo mundo sobre as coisas que faço porque eu não devo nada para ninguém.
Eu levanto e faço café enquanto ele toma banho. Acendo um cigarro e observo o anoitecer. Dormimos o dia inteiro e meu corpo dói. Abro uma página qualquer e leio um poema do velho Buk. Fico divagando, ele sai enrolado numa toalha e senta no sofá. Acende outro cigarro e eu chego perto dele. Nunca sei o que dizer, mas queria dizer que ele pode ficar aqui o tempo que quiser, porque um branquinho sempre cai bem, porque um branquinho não sai tão rápido da sua vida. Ele gosta de mim quando eu estou bêbada e eu gosto dele quando ele está sóbrio, porque quero que ele esteja consciente de tudo e não fale nada só porque está bêbado para depois jogar toda a responsabilidade das palavras dele na bebida. Estamos com fome, eu frito batatas e ganho beijos. Alguém liga para ele, ele vai atender no quarto e eu fico pensando que deve ser alguma puta e eu sinto raiva de tudo isso, porque eu o queria para mim, tão lindo assim, eu sei cuidar bem sem chamar de meu nego, porque já não há nego nenhum. Mas não digo nada. Ele volta, a gente come, eu abro duas latas de cerveja e alcanço uma a ele. Sento nos seus pés, de calcinha e camiseta, os olhos borrados de preto e os cabelos bagunçados. Ele não se importa com as minhas imperfeições, porque as coisas que eu faço superam qualquer defeito e as minhas fotos eram bem diferentes do que eu sou de verdade. Olho fundo naqueles olhos e percebo um caos que também faz parte de mim, mas não sorrio, apenas observo seus movimentos. E não importo com todas as vezes que ele roubou meus marlboros vermelhos durante anos e nem quando fumou maconha e ficou só querendo me comer sem romantismo. Ele vem até mim e tenta arrumar meu cabelo, eu levanto e sento do lado dele e sei que ele sabe fazer a coisa direito e ainda é inteligente. Lembro do poema que fiz pra ele chorando aos quinze anos. Nada daquilo faz sentido quando nós estamos crescidos, porém obrigatoriamente maduros porque a vida exigiu. Tenho vontade de amarrá-lo, mas não posso. Apenas escuto sua voz e sinto seu poder sobre mim que me desvia de toda realidade a minha volta e me faz pensar que esse apartamento é o mundo inteiro e ele me esgota na cama e depois dorme e eu calmamente junto as latas, coloco o lixo fora, lavo a louça, estendo as roupas e vou na janela às cinco da manhã e fumo um cigarro em silêncio, assistindo o amanhecer com ele seguro na minha cama nem que seja por poucas e intensas semanas.

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