Eu ouvi promessas, e isso não me atrai
Esse é o lixo ao qual me submeti
para acabar exatamente como eu imaginava. Não, não como eu imaginava, mas como
eu queria. Q-u-e-r-i-a, ou seja, já não quero mais, porque minha realidade é
outra. Meus sonhos se resumem em receber pouco, muito pouco. Prometeram-me
amor, carinho e atenção incondicionais, me prometeram falta de rotina, me
fizeram poemas de amor. Mas não é isso que eu busco, essa coisa inconstante de
paixões solidificadas, porém tempestuosas, porque renovar-se todo dia não é dar
amor incondicionalmente. De onde tiraram essa ideia maluca de que eu quero
minha rotina quebrada? Eu gosto da rotina, porque ela me traz segurança e porque
nunca nos lembramos de coisas que não chegaram a se repetir.
É óbvio que a minha realidade também
não é aquela, mas também nunca foi a de nenhum deles, porque eu sou de outro
mundo. E me vem aquela atração desmedida de que sinais diferentes se atraem, e
sinais iguais se repelem. Eu já passei por muitas fases, queria uma estação
para ficar, mas não gosto de quem não consegue tirar meu ar, invadir meus
pensamentos, fazer tempestade na minha mente, acelerar meu coração, fazer
minhas pernas ficarem bambas, minha boca seca, ou sonhar tão alto a ponto de
estar disposta a tudo para realizar qualquer coisa e romper com qualquer coisa
que esteja no caminho, porque no amor e na guerra vale tudo.
Não quero ser aquela que permanece
na sacada observando aqueles garotos e fumando enquanto ele está lendo
Nietzsche no sofá, de óculos e eu doida para descer as escadas correndo e
participar daquele movimento, e ter uma importância maior do que um vestido de
festa possa dar. Ele é o homem perfeito não é? Talvez não para mim. E lá venho
eu com meu velho discurso de que vagabundo ficam com mocinhas bonitinhas e
vagabundas com engravatados ricos. Mas eu já li Nietzsche, no entanto sinto
como se eu me unisse a ele não haveria nada de novo para compartilhar, meu
conhecimento está abaixo do dele, mas mesmo assim faz parte da mesma seção da
biblioteca: filosofia, romance policial, horror, psicanálise. Enquanto aquele
garoto precisa de mim, mesmo sem saber direito disso, ele precisa que eu tenha
algo a oferecer que aquelas meninas do mundo dele não tem, porque elas sequer
frequentam uma biblioteca. Começaria com biografias e contos do Rubem Fonseca
para estrear aquela mente revoltada do submundo, que precisa de um pouco de
consciência do mundo insensato e superficial em que vivo, mas me recuso a
viver, onde gays e heterossexuais se misturam e jogam os mesmos jogos e falam a
mesma língua e se afogam nos seus próprios preconceitos baratos, no mesmo nível
em que aqueles garotos que são da rua absorvem sua própria cultura blasfemando
meu mundo e gritando que têm nojo de tudo que não faz parte do círculo afro. De
que maneira posso uni-los se pensam tão diferente? Mas se chocam com cada
argumento que não formam contrastes, mas contradições, e tropeçam nas próprias
gírias: bela moça na língua deles é mina gata. E eu fujo daquilo que não faz
meu coração vibrar.
Houve um tempo em que eu daria
qualquer coisa para ter a vida que eu levo hoje, mas não sou mulher de andar
sozinha pelas madrugadas, já não quero mais isso, porque isso não me dá nada
além de um vazio que eu já não consigo sustentar. Eles fumam a mesma planta,
mas a fumaça nunca subirá no mesmo lugar do mesmo jeito, porque as essências estão
lado a lado, mas o contraste é imenso. Eu atravesso a rua e chego ao bairro do
garoto, as casas mudam, as cores mudam, o cinza aumenta, a atmosfera muda e meu
coração acelera de um jeito que os prédios não fazem, porque o urbano já não me
compra da mesma forma. As coisas que o garoto me ensina vão muito além dos
livros de grandes filósofos, são da rua mesmo, da sarjeta, meu Bukowski é
negro, meu Jean-Paul Sartre é brasileiro. Aprendi muito com esses garotos, mas esse
em especial... Tem algo de urbano nele, uma burguesia que eu só vejo quando
enxergo o coração, porque o essencial é invisível aos olhos.
O que eu posso dar para ele além vai
desde a minha mente prematura aos meus gostos clichês até meu coração vendado
propositalmente por eu mesma. Se eu visse toda aquela miséria, teria eu coragem
de me atirar naqueles buracos? Sozinha provavelmente não, mas com ele eu vou e
mostro a ele meus castelos e minha alma escura, que completa a dele. Ofereço
meus versos fantasiosos e ele me mostra as rimas reais, que eu não vivo e que
eu não sei, mas que vi na TV, li em algum livro nacional. Desde os anos quarenta esse frio já invadia o
Brasil e foi aflorando enquanto eu nunca escutei um verso de dor, mas quando se
conhece poesia com dor, Chopin já não tem o mesmo valor europeu e nobre, porque
vejo meu povo sofrer e se confundir na própria miséria mesmo tendo consciência
de toda merda que está envolvida, e tenho vontade de ir lá dar uma força, mas o
dinheiro já não consegue comprar esses homens, porque eles são os mesmos
garotos que estão na pracinha e eu não quero observar de longe, eu coloco a mochila
nas costas e vou junto e me rolo naquela lama no lugar onde deveria haver
grama, mas há ódio e eles já não me recebem do mesmo jeito, porque minha pele
não é a mesma deles, a raça que prevalece não é a mesma raça filha da puta que
está em meu estado, vou para São Paulo e enxergo bem de perto que aqueles
sofreram tanto que já não vale nada o crime ou a favela. É tudo que eles têm,
culpo meu povo podre e explorador, ignorante. Porém já estão mortos e espero
que paguem toda a puta dor que fizeram eles passarem e se hoje eles matam essas
senhoras ricas e podres, eu já não julgo, só assisto na TV e escrevo sobre eles
e defendo até a morte, porque mulher de verdade fica com vagabundo mesmo e fica
do lado até o fim, porque o meu valor vai além da tua biblioteca empoeirada e
da tua estante cheia de CDs de música clássica, porque meu lugar deveria ser do
teu lado branquinho, mas a rua precisa de mim, mas se tu apareceres por lá
aposto que não sobrevive, porque não conheces o frio sem casaco, teus filhos
descalços e famintos na terra. Não aguentarias, porque talvez sejas estéril.
Tua ambição destruiu o mundo deles, e você permanece parado sem ajudar nenhum
deles, achando que apenas ler e encher a tua cabeça cheia de ideias
irrelevantes mudará a realidade cruel que eles vivem. Isso não é ser homem,
homem atua e não senta com as pernas cruzadas fumando marlboro na poltrona
cara.
Você, branquinho, não conhece o Deus
deles, nem eu conheço, mas sinto a fé no futuro, porém o sonho deles não é ser
como você, porque eles estão muito além de tudo isso, talvez orem para seu mal,
porque você bem não ajuda em nada. Então você olha pela sacada e os vê cantando
e apesar da dor nos olhos deles, a irmandade brilha naquela atmosfera e o gelo
do teu olhar corta as almas deles, e eu desço as escadas correndo, porque o
paraíso deles está longe desses prédios, desses casebres, dessas ruas imundas,
porque eles são mais homens que você, você interna sua mãe enquanto eles a amam
até a morte e matam por ela, e você nunca tocou nunca arma e se já viu uma foi
nas mãos de algum policial que você chamou para pegá-los porque eles estavam
vendendo a maconha que você consome por rebeldia idiota, não conhece nada do
mundo e acha que religiões podem lhe salvar, desculpa por tudo isso, eu também
faço parte dessa merda toda, mas isso me revolta, a riquinha que não tem nada
para oferecer. Espero que eles gostem de mim quando eu chegar lá depois de
atravessar a rua. Não desça as escadas atrás de mim, vá até a sacada e observe
os movimentos daquele garoto tímido que canta enquanto o blues toca baixinho no
teu som e os microfones deles explodem os alto-falantes e invadem teu
apartamento luxuoso e eu sorrio com dor, ao lado daquele garoto que é muito
diferente de você, porque não há rap sem luta.
Preciso te dizer que teu inglês,
francês, espanhol, italiano, alemão, japonês fluente não me conquistam, tu não
sabe a língua das ruas, os dialetos deles não são os teus modos de expressão,
não adianta, nasci para o drama, tenho cultura: cinema, literatura, música,
artes plásticas, idiomas, rodou o mundo, mas não viu os rostos deles no morro,
porque a torre Eiffel é mais bonita não é? Eu tenho pena de você, as menininhas
instruídas e bissexuais por rebeldia te querem inteiro, corre atrás delas,
porque eu não posso viver com quem não enxerga a miséria e não tem atitude,
pare de vender-se para mim, não consigo te bancar, prefiro ele de graça.
Encontro mil iguais a você, conheço suas promessas da boca pra fora, ele nunca
falou de amor, porque o espaço para draminhas românticos é curto, então ele
deixa essa parte para mim, que sou garota. Ele nunca deixará de ser um garoto,
e você nunca deixará de ter essa amargura barata de vodca cara que ele
raramente toma, porque lá eu tomo cachaça. Estereótipo meu? Não tente me
ofender agora, porque isso não vai mudar nada entre nós, sei que sou
superficial, mas ele não acha isso, caminho junto com ele, e não há nada além
dessa tua capacidade de agressão que ele nunca ousaria usar sobre mim, porque
os palavrões dele são o teu francês e os ratos da casa dele são os da tua
piscina e ele escuta Cazuza, mas provavelmente compreenda as letras muito mais
do que você que nunca passou fome e a sua alma é cheia de coisas podres e sem
valor, seus amores poéticos não podem mudar a realidade deles, seus filhos na
escola leem Castro Alves e os deles vivem a escravidão e seu Maquiavel não
salva a política deles, porque os pais deles foram embora e o crime floresceu
naquela terra. Não há como fugir, nasceram marcados e meu sorriso nunca mais
será o mesmo depois de ouvir o pranto deles e deitar no peito dele sentindo as
mágoas acumuladas, os venenos das suas palavras, o lamento das suas rimas, teus
filhos escutarão os sons deles e agradeço todos os dias por não ser a mãe
deles, porque a cor do meu filho não será branquinha e eles não usarão gravatas.
Filho pretinho que anda nu pela minha rua, onde os carros não tem velocidade e
as bicicletas dominam, enquanto você vai dormir ás cinco da manhã na madrugada
de segunda-feira eu vou acordar cedo para trabalhar e dar leite para meus
filhos pardos que não herdarão seus olhos verdes.
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